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sábado, 29 de junho de 2019

Ao sabor do tempo que passa

acrílico s/tela - Júlio Capela

Ao sabor do tempo que passa

Hoje, desloquei-me para espairecer até Valongo.
É sábado, dia de feira na cidade. Entro no meio de trânsito intenso. Para mais, a campanha para as Europeias está no auge. Numa rua são as bandeiras da CDU. Noutra os Bloquistas. Mais até o PPD. E a seguir o PS. E outro. E outro mais além.
Os mirones e os basbaques param pelos passeios e abrem as bocas, ou arregalam os olhos para os chamarizes das montras e das vitrines.
Há o aperto das tendas e dos balcões, de tudo o que atiça a curiosidade de uns, e a cobiça dos outros.
“É a feira da aldeia”, com tudo o que significa e implica.
Entro na balbúrdia. A velocidade é lenta porque o bulício da rua, isso implica.
Qual não é o meu espanto, quando deparo cruzando-se comigo, um camião carregadinho de garrafas de gás, parado no meio da rua, a repartir botijas, pelos estabelecimentos das redondezas. Ali mesmo! No centro da cidade. Aquela hora! Indiferente à multidão!…
Encho-me de indignação. Mas como é possível aquele perigo, àquela hora. Por entre uma multidão de incautos. Que andam a fazer os nossos deputados e o nosso Parlamento, que nos deixa assim expostos ao perigo? Porque é que uma viatura daquelas, com aquele carregamento, se apresenta num lugar público, àquela hora, naquele dia?
E, se acontecer o pior, um abalroamento por exemplo, e a consequente explosão? E, se houver muitos mortos? O que vai ser a choradeira? Quando carpir for inútil, onde encontrar os responsáveis? Para que servem as campanhas de votos? Para encontrar emprego, sem cuidar de responsabilidade.
Sinto-me maldisposto. Incomodado, mas impotente… Os néscios ao Poder…
Sentado num café acalmo, lendo o jornal. E olho pela vidraça. Mesmo à minha frente segue, penosamente, por entre o trânsito e a multidão, o camião carregado de botijas, fornecendo os estabelecimentos. Mas, por Deus, que por hoje, não houve nada…
A quem nos entregaram os nossos votantes.

Maio, 2019

Anselmo Vieira

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Azenhas no Rio Coura


Azenhas no Rio Coura

Por um destes afazeres da vida, que por vezes nos batem à porta, aconteceu-me receber em casa, um aviso das finanças de Paredes de Coura, notificando-me para o pagamento da contribuição, por um, prédio na freguesia de Bico.
Estou com sorte, pensei. Possuo um prédio em Bico e nem o sabia. Apresentei-me no registo de finanças, para que me indicassem qual o prédio e a sua localização.
Para minha surpresa, era verdade!
Fizeram-me ver que a minha esposa é comproprietária de um moinho de água, azenha, na margem direita do rio Coura, uns duzentos metros a jusante da ponte dos Cavaleiros, Freguesia de Bico.
Tratei logo de visitar a tal nova fortuna, que sem contar, me vinha cair em posse.
Bem, a azenha lá se encontra em completo estado de abandono e degradação, empoleirada num penedo mais saliente e penosamente agarrada à ladeira da margem, numa última tentativa de fugir às águas
tumultuosas, que a investem por todos os lados. É este o prédio, que sem contar, me veio cair às mãos.
Pus-me a contemplar em volta, e confesso que fiquei encantado pelo sítio. Do lado oposto do rio, mais três ou quatro moinhos, um deles ainda a funcionar, faziam companhia ao que me coubera em sorte.
Igualmente apoiados na granítica penedia, por entre a qual bramem as águas do Coura, saltitantes, de cascata.
Nas margens um maciço de aveleiras, formando renques que delimitam coutadas. As águas rumorejantes ouvem-se à distância e juntam a sua frescura à da sombra de Carvalhos e Lodeiros que
igualmente se banham, nas águas tumultuosas.
As redondezas, ermas, tem aspeto fresco e acolhedor. Convidando à contemplação, num sossego agradável e delicioso.
A contrastar com a simplicidade rústica dos moinhos, e a beleza selvagem do Coura, a montante das azenhas, rompe aqueles ermos, um caminho milenar e, nele, a famosa ponte dos Cavaleiros, obra de engenharia Romana, de um só arco em volta perfeita, encavalitado em ciclópicos penedos de granito. O arco construído com pedras primorosamente talhadas, de beleza severa, mas nobre e calma, dá apoio a uma calçada bem lançada sobre o mesmo, permitindo-lhe numa passada clássica e elegante, vencer a torrente, indiferente à bruteza dos elementos.
Ao lado da ponte, umas alminhas modestas, adornadas com flores artificiais, tranquilizam o viajante que se aventura por aqueles páramos sombrios e rumorosos.
Mais acima, para o sul, a remendar uma praia, o poço do Trogalho, que antes alimentou de água, as azenhas, recebe agora os garotos das redondezas, que no verão ali tomam banho, e alguns aprendem a nadar.
E agora pergunto: Como é que o turismo de Coura ainda não reparou neste conjunto maravilhoso e o deixa ao abandono?
Atenção, Pelouro da Cultura!


Anselmo Vieira

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Devaneios dos tempos que correm



crónicas do capital financeiro - óleo s/tela de Victor da Silva Barros

Devaneios dos tempos que correm

30 de abril. Esta noite entra o mês de maio. Entra com o Dia do Trabalhador.
Mas os trabalhadores… já eram… Hoje trasvestiram-se de “colaboradores” …
Ontem odiavam os patrões. Lutavam contra eles. Era o tempo das ideologias Marxistas.
Mas hoje também já não há patrões, há empresários. Empresários que oferecem ocupação e oportunidade de colaborar a quem se sinta desocupado. Grande favor!...
Colabora numa empresa, que não é tua, e aceita a gratificação de: não te sentires inútil… é o teu salário.
No jornal do dia: Jornal de Notícias, saboreando um bom café, leio a primeira página. A letras garrafais: “Grandes empresários burlados em muitos milhões, na compra de iates de luxo.”.
Em muitos milhões!
Sorvo um golo de café e sinto-me bem-humorado. Sim senhor. Muito bem empregado…
Então andavam esses Senhores Empresários a juntar milhões, à custa do suor dos seus  colaboradores, a quem deixavam na penúria, vivendo miseravelmente, com um salário mínimo? É justo.
É justo que apareçam outros figurões da sua laia, e lhes apliquem o corretivo.
De resto, o empresário burlado, continuará a ganhar com a sua Empresa, alimentada, não pelos seus lucros, mas pelos Fundos de Investimento, anónimos e juntos, sabe-se lá por quem e como.
No pior dos casos, a Empresa pode falir. Mas o Empresário continua a ser Empresário. O dinheiro não era dele. Só perde os lucros e saboreia o seu próprio veneno.
E os colaboradores? Não são ninguém.

Anselmo Vieira

Maio - 2019

Devaneios da imprensa desportiva



Devaneios da imprensa desportiva
O Jornal, a Bola, despertou-me humor e até hilaridade.
A guerra entre os nossos clubes futebolísticos está ao rubro, neste fim de época.
E não é que os jovens sub dezanove do Porto se sagram Campeões da Europa?
O feito é razoável para as nossas aspirações.
Mas o que me deu gozo é que o Jornal Benfiquista “Bola”, lhes consagrou ou dedicou, a sua primeira página, com uma enorme fotografia de toda a rapaziada. E, para adeptos desportistas se extasiarem e apaziguarem, ilustrou a fotografia, a letras garrafais: “Os dragõezinhos dourados.”
Ora toma: ficai-vos com essa, e consolai-vos. Como quem diz, ficai-vos por aqui… e não nos aborreçais, porque o campeonato é nosso.
Matarei Dragões e Leões… E voarei nas asas da águia.”
Lá diz a Bíblia.

Anselmo Vieira

Maio de 2019

domingo, 28 de abril de 2019

A minha vida é um Rio


A minha vida é um Rio

Um dia soltei amarras,
Que me prendiam à margem.
E abandonei meus cuidados.
Deixei-me levar na corrente,
E a vogar meu barquinho,
Ultrapassei o Bugio.
E sempre, sempre a sonhar,
Encontrei-me baloiçando,
Nas ondas do Alto Mar.
Enfunei velas ao vento,
Dirigi a proa ao Sul,
Caminho de Gil Eanes…

Perdido no imenso mar
Via baleias respirar…
E os irrequietos Golfinhos,
À minha volta a brincar.
E quais gafanhotos marinhos
Peixes voadores, festivos, pareciam
Minha aventura festejar.
Enquanto o sol tropical
Em suor me fazia arfar…
Vi o perfil das Canárias,
Sonhei, sonho de Afonso IV…
E continuei a rumar.
Caminho do Equador
Caminhos de Diogo Cão,

Que ao Congo me iriam levar,
E do Congo, ver a luta,
Investindo contra o mar,
Até bem dentro do mar!

Cansado já do caminho,
Desejando descansar,
Virei a proa a Nascente.
Fui descansar a Luanda.
Salvador Correia de Sá,
Eu estive na tua Baía…
Bela cidade de Luanda,
Onde estiveste um dia.

E, em Luanda, cheirei África…
O seu cheiro a colmo podre…
Em tempestade de verão.

Abril – 2019

Anselmo Vieira

GORA EUSKADI



GORA EUSKADI

Gora…. Gora…
Gora… Euskadi.
Minha terra de adoção.
Gora…. Gora, Iturrinha…
Meu sinal… de devoção.
Gora… Gora, Euscalduna
Ânsia de libertação…
Gora… Gora, Euskalerria…
Chamamento p’ra União…
Irúnha, tu és Navarra…
Tu não és Aragonesa…
Muito menos Castelhana…
Junta-te aos teus irmãos…
Seus gritos vem de Biscaia…
Ouço gritos… vem de Euskadi…
De Guernica… destroçada…
Álava já escuta, inquieta…
Guipúscoa já se levanta…
Euskadi… todo estremece.
Ergue-te Tolosa orgulhosa.
Redime-te Loiola… redime-te.
Que rei estranho serviste…
Um rei que não era o teu…
Vai a Aránzazu… no “Espinho”

Espiar tua traição…
Não queiras Eiskadi pensar,
Por cabeça de Castela…
Que Castela está na Espanha;
Mas Espanha não é Castela.
Gora… Gora…
Gora Euskadi…
Gora Portugaleuska…

Abril – 2019
Anselmo Vieira

NOTA:

Homenagem ao país e Povo Vasco, onde vivi mais de quatro anos.

domingo, 31 de março de 2019

OS NORMANDOS


OS NORMANDOS

Estes povos deixaram marcas profundas em toda a Galiza e Norte de Portugal, mas quase foram esquecidos. No entanto, quase tudo que entre nós se atribui a tradições do paganismo, lhes é devido.
Chegaram cá a princípios do séc. IX, vindos da Dinamarca, Suécia e da Noruega e puseram a Galiza e Norte e Centro de Portugal a ferro e fogo. Os povos da margem do Lima devem ter vivido um inferno.
No séc. X, uma esquadra de 200 barcos ataca a cidade de Tui. E pouco depois a zona de Coimbra.
S. Rosendo, bispo de Mondonhedo, lutou contra eles a mando e às ordens do rei das Astúrias. A cidade de Guimarães, nasce dessas lutas. E o seu castelo ergue-se para defesa.
No séc. XI, aos antigos Viquingues juntam-se outros: Francos, Saxões e Holandeses.
Relacionam-se com os naturais, criam as salinas de Aveiro, e deixam os barcos Moliceiros no sal de Aveiro. É provável que tenham introduzido o gosto pelo Bacalhau. O sal de Aveiro pode ter salgado as carnes de FONTÃO.
D. Sancho I buscou entre eles maridos para suas filhas. Casou uma com o rei da Dinamarca, e outra com o rei da Noruega.
Nesse tempo ainda Fontão gozava duma economia próspera. E, provavelmente, foi no séc. XII, que se tornou uma Paróquia e Freguesia autónoma.
O ermamento, deve, pois, ser revisto à luz destas lutas e calamidades. A instabilidade e a insegurança reinaram nós séc. VIII, IX e X. As guerras, assaltos, saques, sequestros e levas de prisioneiros, vendidos como escravos. As matanças e todo o género de violências de que estas populações foram vítimas.
Apesar de tudo, os que resistiram foram capazes de garantir a continuidade. Forjaram o seu carácter e modo de ser, que é o seu carácter, ainda hoje.
Os nomes germânicos que se sucedem na Toponímia portuguesa, originam -se nestas épocas. Mas a Toponímia Fontanense manteve-se, fundamentalmente latina. Sinal de continuidade.

Anselmo Vieira

sexta-feira, 29 de março de 2019

A Indústria da Dobrada e o Rio Podre



A Indústria da Dobrada e o Rio Podre

Rio Podre foi o nome que os antigos, talvez Romanos, deram ao rio de FONTÃO. Podre? Porquê?
A indústria das carnes. O aproveitamento das peles e das vísceras. A indústria das tripas. As peles curtidas nas águas do rio. As vísceras lavadas nas águas do mesmo. A indústria alimentar de los Callos usados na alimentação dos Galegos, dos Asturianos e dos Vascos. De todos os povos Cantábricos. Prato típico do norte de Espanha.
A origem das tripas à moda do Porto. Estava desvendado o enigma.
Houve tempos em que, inserido nesta economia, lá por fins do primeiro milénio, florescia nesta terra, que hoje é Fontão, um nicho de comércio florescente, baseado na exploração de gado bovino e na industrialização das suas carnes. Era no tempo dos reis das Astúrias.
As lutas com os Muçulmanos fazem movimentar os exércitos. E estes necessitam de ser abastecidos.
Do Norte chegam bandos de Cruzados, a caminho da Terra Santa, e marcam encontro nestas paragens da Galiza.
As peregrinações a caminho de Compostela, trouxeram muitos devotos, e vitalidade a esta economia.
Fontão estava integrado nesta economia e participava nela.
Em terra ficariam os miúdos dos animais, para alimento dos naturais. As vísceras para serem tratadas e transformadas nos Callos, Dobrada utilizados, provavelmente na alimentação dos pobres ou de todas as populações do Norte Cantábrico.
O rio ficaria decerto pútrido ou com esse aspeto, fruto destas atividades.


Anselmo C. Vieira

FONTÃO, VILA ROMANA



FONTÃO, VILA ROMANA
A Vila de FONTÃO estava bem localizada. Bem servida pela Via que do Porto se dirigia para Tui. E esta Via entrava em FONTÃO pela ponte do Arquinho, construída na Veiga das Patas. Subia ao lugar da Bouça Velha, ladeava a Veiga do Talho e, pelo Retiro, pelo Rego e Lomba, entrava pelo Lugar das Necessidades, na freguesia de S. Pedro de Arcos; passava pela Gala e dirigia-se para Esturãos, cujo rio vencia em nova ponte, rodeava a lagoa de Bertiandos e dirigia-se para Arcozelo em Ponte de Lima, donde seguia para Tui, capital destas terras, naquele tempo.
Ainda na ponte do Arquinho, a Via Romana bifurcava-se. Ladeava pelo Sul, a Bouça Velha, e dirigia-se ao Rebordelo pela quingosta da Gala, atingia o Souto, atravessava a Arca e, bordejando as Regadas, dirigia-se, entre os Poços e os Linhares, seguia pela Bouça do Homem, para a Veiga da Anta, passava onde é agora a Ponte Nova para a Veiga de Cima e pelo poço da Liteira, onde se vê ainda calçada romana. Atravessava para Bertiandos por nova ponte, sobre o riacho a pouca distância da sua foz.
A Vila agregava todo aquele território que hoje se divide pelas três freguesias: Fontão, Arcos e Esturãos.
Como podemos imaginar, eram terras húmidas, pantanosas, encharcadas ao lado duma lagoa, que não abonava da salubridade do seu clima. Por isso não seria muito povoada. Mas eram ricas de pastos.
Talvez por isso, atraíram a atenção dum empresário Romano, que nelas viu a oportunidade de fundar uma empresa pecuária de criação de gado bovino. Não sabemos quem foi o Romano que se aventurou. Mas o nome GALA aparece como nome de um Lugar em S. Pedro de Arcos. E em Fontão aparece a quingosta da Gala.
GALA era o nome duma família Romana, cliente da família Júlia, que vivia do negócio do leite. Esta família acompanhou Júlio César, quando este veio como governador para a Espanha. Bem pode ter sido esta família que esteve na origem da Vila.
Desconhecemos as suas dificuldades e êxitos. Mas o governo do imperador Cláudio e a conquista da Inglaterra, no tempo do mesmo, trouxeram a esta região e a toda a Galiza, uma grande atividade construtora de vias e grandes movimentações de tropas. Aqui ficaram muitas das bases de apoio às legiões que operavam na Grã-Bretanha. É provável que estas atividades tenham ajudado a vingar e incrementar o empreendimento da Vila.
Naturalmente baseado no trabalho dos escravos, o Senhor progrediu e aumentou o seu poder. Só isto pode explicar a abertura do rio da Vala, que exigiu certamente um grande esforço e comandamento unitário. Esforço que se justificaria, mesmo que feito a título particular, para aumentar e melhorar as pastagens.
Mas da vida desta Vila, nós ignoramos; porque, dela tudo foi esquecido.
É provável que a unidade deste empreendimento tenha sido posta em causa com a chegada dos Suevos.
Penso que foi durante o tempo Romano propriamente dito, que o Fontanos se tornou no rio Podre, devido ás épocas das matanças, quando nele se lavavam as carcaças e se lhe arremessavam os detritos dos animais abatidos indústria dos curtumes, ao aproveitamento das vísceras, indústria da Dobrada; talvez, para alimento dos escravos.
Em toda esta época, desde a Galiza até às Vascongadas se espalha esta gastronomia CALLOS e tripas à moda do Porto, em Portugal. Ainda hoje se mantém.
Uma segunda fase tem começo no séc. VIII. Foi quando os Árabes chegaram à Galiza, e encontraram aqui o reino dos Suevos, federados com os Visigodos. Os Árabes perseguiram e destruíram todas às estruturas de poder, e decretaram a libertação dos antigos servos ou escravos. Todos passaram a ser livres e senhores dos seus destinos, sob a autoridade do novo conquistador.
Os antigos senhores desapareceram. Mas a vida continuou. Era preciso continuar o trabalho. A vida continuava, agora mais responsável. Cada um dependia de si. A vida parecia a mesma, nos mesmos locais, nas mesmas canseiras. Mas, agora livres e responsáveis.
Isto explica a manutenção da Toponímia e a sua continuidade.
Mas a surpresa vem, agora pelo mar. E subiu pelo rio…
Aparecem os Viquingues. Normandos vem parar saquear, roubar, recolher cativos para vender como escravos. Vem, assaltar, roubam, matam, cativam e retiram. Mas voltam novamente e surpreendem sempre. No Alto de Fontão, os Árabes erguem uma torre de vigia, uma Giralda. Mas inútil. Os Normandos voltam sempre. A fuga é o único remédio. Os Muçulmanos retiram para o Sul. Os Fontanenses, certamente para a serra de Arga. E a vida, desamparada de um poder central torna-se um inferno. A serra de Arga é o seu refúgio. Num lugar combinado, o Retiro, juntam-se com os seus haveres e o seu gado e fogem para a serra onde podem demorar o tempo necessário. Abandonados de qualquer poder central, tornam-se serranos, da serra que os protege: Arga.
Livres dos antigos senhores, escorraçados os Árabes, os antigos servos da Vila Romana estão sozinhos, entregues a si mesmo.
Mas são autónomos, autoafirmam-se.
Em Aveiro os Normandos exploram as salinas. Evoluem do saque para o comércio. Convertem-se ao Cristianismo.
Direcionam a sua fúria guerreira só contra os muçulmanos. Aliam-se aos cristãos. Os reis das Astúrias preparam a ofensiva.
Chegam outros tempos.
Na Vila Romana os naturais conseguem entender-se com os antigos agressores. Ao entendimento, segue-se o comércio.
A prosperidade regressa. Aproximam-se os tempos dos Presores. A reorganização das Paróquias. Os reis das Astúrias aproveitam o vazio para imporem a sua autoridade e o seu fisco.
Na antiga Vila Romana o gado pasta no Ameal e na encosta da serra. No Toural reúnem-se os reses a abater. O Rio Podre, apodrece ainda mais. No Valo fervilham as embarcações. E os carregamentos de peles e de carnes sulcam o Lima em direção ao mar.
Depois vem os peregrinos de S. Tiago. São os turistas daquele tempo. E os negócios incrementam-se.
Por último, surgem as Cruzadas. Mesnadas de guerreiros marcam encontro na Galiza, a caminho da Terra Santa. Era preciso fornecer estes guerreiros.
Os lucros comerciais aumentam. A economia progride. A Galiza impõe-se no contexto social cristão do Norte de Espanha, fruto da sua florescente economia. A Vila de FONTÃO acompanha este movimento. Entretanto nasce um novo Reino: Portugal. É em Portugal, que de futuro se reúnem os Cruzados a caminho da Terra Santa.
O novo rei necessita de recolher impostos e impõe o fisco a troco de defesa. A segurança nos caminhos é a condição da aceitação. Aí está o lugar das Torres a atesta-lo. Em frente ao Ameal, de vigia aos gados e às pastagens. E a família dos Serenos, certamente guardas régios, garante a segurança e o recebimento dos impostos.


Anselmo C. Vieira

quinta-feira, 28 de março de 2019

TOPÓNIMOS



TOPÓNIMOS

Foi o meu Pai que me meteu na cabeça o bichinho da curiosidade, quando me contou que na foz do rio do Talho, existia um tear de ouro enterrado na areia. Isto nunca mais me saiu da ideia.
Aprendi que uma lenda não era uma verdade. Mas, também aprendi que uma lenda, esconde uma verdade esquecida.
Por isso, tentei desvendar a verdade que esta lenda encerra.
Chegaram-me às mãos muitos papéis com histórias de personagens, capelas e figurões importantes, mas que não encaixam com o tema que me preocupava.
Virei-me para a toponímia dos Lugares. Verifiquei que a Veiga que estava mesmo em frente do possível tear se chamava: Veiga do Valo. Ora valo, é um fundeadouro onde ficam ancorados os barcos. Logo, o fundeadouro ou ancoradouro, onde se encontra o tear, dá nome à Veiga, o que indica que é mais importante que a mesma, já que é lugar de referência.
Logo a seguir, para montante, segue-se a Veiga do Talho. Talho pode ter muitos significados, mas, o mais importante é o que se torna referente. Não é o talho da Veiga, mas a Veiga do Talho. E o rio do Talho prolonga-se até um ponto em que deixa de chamar-se do Talho e passa a chamar-se para montante, rio Velho. Certamente para designar maior antiguidade. Tudo isto parece indicar que no rio, anteriormente conhecido, se localizou um talho tão importante que influenciou todo o posterior historial do rio, até lhe modificar a toponímia. E o local do tal Talho, bem pode ser um sítio onde hoje se localiza uma “Eira” que é anacrónica pela sua localização e por ser a maior de Portugal. Para montante do rio fica o Toural e a seguir as Torres e o Ameal.
A partir de um certo tempo, o Rio deixa de chamar-se do Talho e passa a chamar-se: Rio Podre. Porquê?
Às pastagens do Ameal, o Toural, o Talho, o tear do Valo, tudo nos leva a pensar tratar-se de negócios da criação de gado bovino e suas carnes e peles. O rio Podre do Talho para a foz insinua a lavagem das carcaças, dos desperdícios deitados para o rio, e da lavagem e aproveitamento das vísceras. Pensamos ainda, na indústria da tripa, a dobrada, que deu origem ao prato gastronómico: Tripas à moda do Porto.
Neste contexto a palavra Toural ganha relevo. Nada de figurões, mas gado. A economia da carne e do gado bovino, tão abundante nestas regiões, e que tanto atraiu a atenção de povos antigos como os Gregos, que aqui puseram o décimo trabalho de Hércules, roubando, na Corunha, os bois de Gerião.
É nesta linha de economia que se encaixa a vivência esquecida e arrumada, no inconsciente da alma Fontanense.
Houve, pois, um tempo em que em FONTÃO se desenvolveu uma florescente criação de gado bovino e um rico comércio de carnes e curtumes. Este comércio formatou a alma Fontanense. Depois tudo se apagou e desapareceu. Mas, quando e porquê?
É o que vamos averiguar.
Como surgiu esta atividade? Como se desenvolveu? Quais os seus períodos? Qual o seu esplendor? Porque desapareceu? Quando?
Porquê, sendo Fontão, uma pequena freguesia e pobre, pagava ao fisco o dobro das freguesias vizinhas?
Porquê sendo Fontão uma freguesia de criadores de criadores gado e não agrícola, tem a maior eira de Portugal?
4 de maio, de 20l3
Anselmo C. Vieira

quinta-feira, 14 de março de 2019

Machado Paleolítico em seixo talhado, na Praia Norte de Viana do Castelo

Machado Paleolítico em seixo talhado, na Praia Norte de Viana do Castelo






Este seixo tem de comprimento 11 cm.
De largura tem 9cm.
De espessura 4cm.
De peso 450 gramas.
Tem a forma de martelo ou de machado.
Tem uma zona de pescoço trabalhado com a técnica de lascamento.
Tem um rebordo a toda a volta.
Tem um gume e uma linha de corte numa das bases.
Na outra base mantém a superfície primitiva, configurando forma de martelo.
Trata-se de um seixo rodado e que foi afeiçoado de forma a obter um instrumento de corte e de percussão.

Achado de superfície, na escombreira de seixos entre os afloramentos rochosos e a linha limite da plataforma marítima da dita praia.
Pesquisando entre os seixos, deteve-se o meu olhar num godo, estranho pelas suas linhas irregulares, cujas formas excitaram a minha curiosidade.
É um seixo talhado em forma de biface pela técnica do lascamento.
Quanto mais o observei, mais me convenci tratar-se de um instrumento pré-histórico da época do Paleolítico Superior, a anunciar já uma época de transição.
O seu material é de quartzito. Tem a forma de um machado. Denota muito uso e desgaste e, a patine, grande antiguidade.
O corte ou fio em forma de biface, bastante polido pelo uso, denota princípio de fissuras, talvez resultado do impacto dos golpes, quando foi utilizado.
À primeira impressão pensei tratar-se de um artefacto de um qualquer mariscador da cultura Asturiense, presente nas atuais praias de entre Minho e Lima.
Observando melhor achei o utensílio muito complexo, para uso tão simples. Além disso, pareceu-me duvidoso que a orla do mar chegasse no tempo do mesmo ao sítio onde ele foi encontrado agora, à Praia Norte de Viana do Castelo. Nesse tempo o mar devia estar muito distante da orla actual.
De fato, o nosso objecto tem a forma de um machado, com um alongado fio de corte.
Ocupa esse fio, em dupla face, a parte maior do artefacto. Segue-se-lhe um rebordo bastante tosco e irregular que o rodeia a toda a volta. A seguir outra superfície em forma de pescoço, talhado em pequenas lascas, bastante polidas que parece ter sido zona de agarramento, ou para encabamento de bastão de madeira, que o tornaria num eficaz instrumento de corte, ou numa mortífera arma de guerra, na luta corpo a corpo.
O nosso instrumento remata num pequeno cabeço em forma de martelo, única parte do seixo que se mantém na sua forma original de seixo, sem lascamento. Seria muito eficaz e contundente nas pancadas por ele desferidas.
Toda esta evidente complexidade sugeriu-me tratar-se de um machado de guerra, projectado e realizado por um ser muito inteligente e que o programou para múltiplas e complexas finalidades.
Demasiado complexo para ser um simples instrumento de extracção de mariscos, concluí tratar-se de um utensílio com mais de vinte mil anos, antes da desglaciação que, encontrando-se embora na orla da praia, da mesma estaria muito distante na época em que foi fabricado.
Entretanto deu-se o degelo, o nível das águas do mar foi subindo até ao nível actual em que o fui encontrar. As ondas batendo na orla marítima continental arrancaram-no à luz do dia e criaram um contexto diferente, mas que deixam adivinhar um continente submerso e uma civilização destruída, talvez relacionada com o que agora chamamos de Cultura Asturiense e que os antigos lembram na lenda da Atlântida, que tanto impressionou os escritores antigos como Platão e os Egípcios, seus contemporâneos.


Anselmo Vieira

segunda-feira, 4 de março de 2019

Os mistérios do Rio Fontão


Os mistérios do Rio Fontão

O rio Fontão que separa a Freguesia do mesmo nome da de Lanheses, na margem direita do Rio Lima, ao que vem ter, com as águas que escorrem da serra de Arga, pela encosta de Silvareira, surpreende-nos pelas muitas curiosidades que nos questionam.
Antes de mais, a ponte romana que o atravessa, entre a veiga das Patas e os lugares da Bouça Velha e de Infesta, Alto de Fontão, que já se chamou Alto da Giralda e, agora, Vitória. Esta velha ponte continua a dar passagem a um caminho medieval, antiga via romana, provavelmente obra do Imperador Cláudio.
Outra curiosidade é que o pequeno ribeiro desagua num fundão que tanto pode ser natural como artificial, por isso conhecido por “Valo”. Agora está assoreado, mas que eu conheci, na meninice, quando era um varadouro de muitos barcos, cheio de bulício de barqueiros e suas mulheres, e até crianças que neles faziam suas moradas, nos meses quentes.
Diziam os antigos que no fundo das areias desse Valo ou Fundão, jazia um tear de ouro. Crença que nos sugere uma reminiscência de frutuosos negócios. O Valo dá nome à Veiga, que o rodeia, pelo menos pelo lado de Fontão. Quem sabe se, porque nela acampassem os mercadores que aí acorriam?
Mas à medida que caminhamos para montante o Rio deixa de chamar-se de Fontão, para chamar-se Rio do Talho e à veiga que o rodeia: Veiga do Talho. Contudo os naturais nem sempre o apelidaram assim. Houve épocas em que foi conhecido como Rio “Podre”. E é assim que foi mencionado nos mapas dos Serviços Cartográficos do Exército e nos dos Serviços Cadastrais.
A penetrar na freguesia, no Lugar do Retiro aparece à margem do rio uma enorme “Eira”, que dizem ser a maior de Portugal, e surpreende pela dimensão e localização. Porquê o anacronismo?
O certo é que neste ponto o rio deixa de chamar-se Rio do Talho ou Rio Podre, e segue pela nascente com o nome de: “Rio velho”!...
Com este nome continua pelo Toural, pelo Ameal e pelas Torres para as Neves até se perder na Silvareira.
Todos estes pormenores: o Toural, junto às ricas pastagens do Ameal, das Neves e das Torres, o anacronismo duma Eira desproporcional e deslocada indicia-nos não ter sido esse, no início, o seu destino.
E porque não o antigo Talho, que deu nome ao rio? Talho ou açougue com dimensões industriais, para alimentar um rico comércio de carnes, que deu nome ao rio, por onde corriam os detritos ou desperdícios, dando-lhe o aspeto nauseabundo ao cheiro e ao olhar, Rio Podre. Mas coroado com o tear de ouro na sua foz a sugerir-nos negócios lucrativos esquecidos no tempo, mas cristalizados na Lenda.
Penso que todas estas reminiscências se poderão reportar aos tempos romanos da época de Cláudio aproveitando a oportunidade da conquista da Inglaterra… Ou na época de Teodósio, em que estas terra parece terem vivido tempos de prosperidade.
Mas parece também que já na época Suévica o rio do Talho se chamava rio Podre.
O termo Toural parece aportar à Alta Idade Média. Neste caso terão sido os Normandos, quando esta região do Lima se tornou uma autêntica colónia Dinamarquesa, que dinamizaram estas actividades, e nelas terá tido origem a indústria da tripa ou “dobrada”, embora seja mais crível que esta terá surgido para alimentar os escravos nos tempos de Roma.
A receita culinária da “Dobrada”, típica do Norte de Portugal e que se estende por toda a Galiza, Astúrias e Bascongadas, no chamado prato dos “Calhos” e que deu origem ao mito dos “Tripeiros”, terá esta origem e remontará a esses tempos. Os primeiros tripeiros terão sido, pois, os escravos romanos destas regiões.

Anselmo Vieira

(Arqueólogo)

Nas origens de Fontão



Nas origens de Fontão
Desconhecem-se as origens de Fontão. Terra e gentes de caraterísticas acentuadamente rústicas, não teve “certidão” de nascimento. Ou, se a teve, perdeu-se com o andar dos tempos. Mas, a Arqueologia pode preencher esta lacuna.
Penso que o berço da “terra” se poderá encontrar no pequeno “Outeiro” que é agora o Lugar dos Remédios mas ainda ninguém o confirmou…
Os dados arqueológicos dizem-nos que por aqui se afadigaram muito os Romanos, desde pelo menos cem anos antes de Cristo. De fato, estes deixaram-nos pelo menos três pontes, cujas técnicas os estudiosos concordam, sem dúvida, atribuir-lhes. São elas: a Ponte do Arquinho, sobre o Rio Fontão, na veiga das Patas; a Ponte Nova, sobre o Rego da Vala, na Veiga da Anta; e, na Veiga de Cima, a Ponte sobre o Rio Estorãos que dá passagem, de Fontão para Bertiandos. Todas estas pontes seguem, num troço de uma via secundária Romana que vinha do sítio do Barco do Porto, em Serreleis, e por aqui passava em direção a Ponte de Lima. Era o antigo caminho medieval, que serviu a freguesia desde o tempo dos Romanos, senão antes, e o único até há bem pouco tempo.
A ponte do Arquinho, ou das Patas, liga Lanheses a Fontão. Penso que tem três arcos e uma calçada de grandes lages. A partir desta ponte a Via Romana sofre uma bifurcação em dois braços: um que se dirige para a Serra e segue pela antiga estrada de Valença para a ponte, também Romana, de Estorãos; outro braço que bordeja as Veigas do Rio Lima e pelas “Regadas” segue pela Arca, Souto, Linhares para a Ponte Nova, na Anta e dali para a Veiga de Cima, para entrar em Bertiandos, na Ponte sobre o Rio Estorãos. Esta é a segunda ponte.
Estas duas pontes são as mais antigas, talvez uns trezentos anos mais velhas que a Ponte Nova. Daí o nome desta.
Estes dois braços de caminho justificam-se, talvez, pelas dificuldades que haveria no inverno de vencer o obstáculo da Lagoa de Bertiandos que se atravessava pela frente. A Lagoa deve ter sido, nos tempos de construção destas pontes, muito maior, mais extensa e difícil de vencer. Devia prolongar-se por aquilo que em Fontão chamam as Regadas e que se prolongam por toda a extensão das Veigas do Rio Lima, entre estas e a freguesia.
Estas pontes e os respectivos caminhos que servem foram edificados e abertos no tempo do Imperador Cláudio, como obras de apoio ao seu empreendimento de conquista da Inglaterra.
Por toda a Galiza foram construídas bases de apoio às Legiões que operavam na ilha Britânica.
A Ponte Nova é muito mais recente e moderna. Tenho para mim que foi obra dos tempos do Imperador Teodósio ou de seu pai, governador da parte ocidental do império e que pode ter sido o dono destas terras. Ele, ou a sua família ou a família da sua mulher. Provavelmente para obtenção de novas áreas de pastagens, enxugando os terrenos pantanosos pelos quais a lagoa se estendia. Trata-se pois, de um empreendimento destinado a incrementar as actividades pecuárias.
O projecto era constituído pela abertura de um canal entre a Lagoa e o Rio Lima para escoar as águas da mesma e drenar os terrenos circundantes, enxugando-os.
Como esse canal ou vala atravessava uma via principal, muito importante para as populações locais, foi necessário incluir nas obras uma ponte, cujo nome não se sabe, mas que os naturais chamavam, muito simplesmente, Ponte Nova. Certamente por relação à ponte mais antiga sobre o Rio Estorãos, da qual fica muito perto.
Estas obras exigiram um esforço tão colossal em gastos e mão-de-obra que, talvez só a família Imperial estivesse em condições de executar.
Esta Vala e esta Ponte constituíram uma obra verdadeiramente espantosa, mudaram a fisionomia destes sítios. Aumentou e melhorou as pastagens e as possibilidades pecuárias desta terra, até aos dias de hoje. Melhorou as condições sanitárias da região e os terrenos de cultura. Dotou a freguesia de mais um rio: o Rego da Vala.
A maior parte dos terrenos, antes cobertos pela Lagoa, tornaram-se verdes pastagens, que ainda hoje permitem uma rica economia pecuária.
Anselmo Vieira

(Arqueólogo)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Lamentos de Rosalia II



Lamentos de Rosalia II

Ó, insensata Galiza,
herdeira de Gerião,
que nasceste para rainha,
escolheste a servidão.

Levaste no teu regaço,
o regente de Castela,
a quem foste alimentar!...
a quem foste entronizar!...

Vai a Mieres ouvir,
os urros do Mariscal,
da cabeça degolado, aos saltos em convulsão.
Enquanto a Castelhana,
te aponta a ti, Galiza,
os caminhos de Castela:
caminhos de escravidão.

Trocaste os teus irmãos,
por arrogantes senhores,
choram agora teus filhos,
e nos ventos que nos chegam,
da Meseta Castelhana,
ouvimos nós, perplexos.

Que mal te fizeram os galegos,
ó terra dos castelhanos
para que assim os maltrates
ó ingrata Castela.



Os lamentos de Rosalia,
são a Galiza a chorar.
se foras mais previdente,
poderias, Galiza, cantar.

Quiseste ser Visigoda,
abandonaste os irmãos,
foste corpo estranho em Castela,
sofreste a rejeição…

Ai! Gelmires… ai! Fonsecas…
Cabeças de Gerião!
Tão mal fostes aconselhados…
E ao povo a quem guiastes,
deixastes na sujeição.

Defensores do Apóstolo…
dele ignoraste a lição:
ser defensor das Espanhas…
e não da Espanha, nação.


Lamentos de Rosalia…

A.V.