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sábado, 29 de junho de 2019

Nasce um povo

Nasce um povo
S. Rosendo, em Santo Tirso - escultora Irene Vilar

Quando, nos primeiros anos do séc. X, Afonso III, rei das Astúrias, deu ordem aos seus Presores, que atravessassem o rio Minho e ocupassem as terras da Serra D’Arga, as gentes de Fontão devem ter-se sentido aliviadas, integradas que ficavam no fundo real.
Mas, os sucessores do rei não estiveram à altura.
Os mouros regressaram. E o novo reino de Leão, teve de contrair-se, novamente, na direção das Astúrias.
Nas terras marítimas, os Vikings, moviam-se a seu bel prazer. E a foz dos rios estavam-lhes escancaradas, sem proteção. Eram eles os senhores das terras.
Foi o tempo de S. Rosendo governar a Galiza. Mas o santo, que tentou organizar as paróquias, isto é, freguesias, do Vale do Lima e terras do Neiva, mais propenso à vida mística, do que à guerra; e, para mais assoberbado, com ataques de rivais Cristãos, acabou por retirar-se para um dos mosteiros que fundara; não sem desabafar: -“Quem com ferros mata, com ferros morre.” O que poderá ter sido um augúrio, ou uma confirmação…
No entanto, ainda lhe devemos a inauguração da igreja de S. Cláudio, em Nogueira.
Outras paróquias devem ter sido fruto desse esforço agregador do nosso santo. Mas de Fontão, não se sabe nada. Talvez estivesse agregada na freguesia de S. Pedro D’Arcos.
Sabemos que a sua família se terá entendido com os Vikings, que se acoitavam na ria de Ovar e por toda a foz do rio Vouga, e que, por isso, terá tido desentendimentos, com os reis de Leão.
O certo é que o Séc. X morre com estas terras do norte de Portugal, e sul da Galiza, a ferro e fogo.
Aproximavam-se os dias de Almançor e S. Rosendo morre no seu mosteiro, na Galiza.
Sombras negras pairam no horizonte.

Almançor


O ano de 997 deve ter sido uma data de terror. Almançor reúne as suas hostes em Viseu.
Os Condes, amedrontados, desligam-se da obediência ao seu rei. E correm, submissos à convocação do Caudilho Muçulmano.
Metódico, este organiza o seu exército. Da sua competência, e a prová-la, restam-nos, ainda, as admiráveis: “Cavas de Viriato”.
Retirem de lá a estátua do Lusitano. E deem: “O seu, a seu dono.”

A cavalgada tem como destino: Santiago de Compostela. O trajeto, passará pela “Terra de Ninguém” e pela ponte do Rio Lima.
Mais uma vez, os Fontanenses, esgueiram-se para o interior da serra d’Arga.
Ultrapassada a ponte do rio Lima, por alturas de Labruja e no sítio do atual santuário do Senhor do Socorro, o exército de Almançor deparou com dificuldades intransponíveis. O general teve de fazer alto e contratar sapadores que lhe abrissem uma picada, para vencer a
montanha. Paragem que demorou semanas. Imaginemos a aflição dos naturais.
Anos depois, já entrado o séc. XI, Almançor morre em Sevilha. Mas a tranquilidade não voltou.
Pouco depois, é o filho mais velho de Almançor que segue os passos do pai, na vontade de destruir os reinos Cristãos e por caminhos, mais no interior da Península, dirige-se novamente, às Astúrias. Estatela-se contra os Picos da Europa, onde morre com a maior parte do seu exército.
Morre o mais velho, teima o segundo. Este vem por mar. Não chega às Astúrias, como pretendia. Os historiadores falam de uma Frota, de mais de trinta mil guerreiros. Uma tempestade, medonha atira-os contra os rochedos de entre a foz dos rios Lima e do Minho.
Salvaram-se, apenas, os que o mar atirou por sobre os penhascos para as praias e campos da orla marítima. E tão desorientados e desprotegidos, que por cá ficaram, deixando marcas no ADN, das gentes locais.
Deram-se estes acontecimentos, na primeira década do Séc. XI.
Os Muçulmanos, cansados, perece adormecerem. Mas a paz não chega. Chegam novamente os Vikings em oleadas contínuas, e cada vez mais prolongadas, já na década seguinte.

As invasões dos filhos e netos dos Vikings



É minha fonte o investigador Hélio Pires, no seu livro: “Os Vikings em Portugal e na Galiza”.
Ele fala-nos de como eles chegaram e por cá se movimentaram, num conflito à vontade, despreocupados, já com umas pinceladas de Cristianismo, que não lhes retiravam a ferocidade nem a cobiça. Espalhavam-se por toda a região a norte do rio Vouga. Estendiam-se à Feira. Andaram pelas terras da Maia e por todo o norte Minhoto e estendiam-se pela Galiza.
Desenvolvem a caça aos naturais, que fazem cativos. Exploram o negócio do resgate.
Arranjam mesmo cúmplices entre os Cristãos naturais da terra, e os condes, traficantes na Feira, em Ovar e Vermoim, na Maia. Escondem os seus barcos, na ria de Ovar, ou na Pateira de Fermentelos.

Hélio Pires descreve-os como “os filhos e netos dos Vikings”, aludindo, sem dúvida, à mistura com os naturais. E eu vejo neste ambiente, a chegada às terras do Porto, do culto da Nossa Senhora da Vandoma.
Hélio Pires deixa entender que estes ataques eram numerosos, e constantes; e não meramente ocasionais, senão que as suas razias eram prolongadas no tempo e que se sucediam umas às outras, apoiando-se em lugares estratégicos, onde assentavam as suas bases e onde se misturavam com as populações locais, criando conivências e cumplicidades, propícias ao entendimento e à consanguinidade, tanto por via materna, como paterna.
Estes dramas, tragédia daqueles tempos, prolongaram-se durante todo o Séc. XI. Ainda no fim do mesmo século, vemos o Bispo Gelmires, de Santiago de Compostela, enredado contra os Normandos, e lutando contra os mesmos, já no tempo de D. Hurraca.
Foi neste caldo social, que o nosso primeiro Príncipe, foi buscar os seus colaboradores.
Se é que o mesmo, fosse ele quem fosse… não era também portador do mesmo sangue…como os nossos aristocratas, que de Asturianos, tinham pouco.
Para mim, o Povo Português, gerou-se neste caldo social, vivido neste tempo e nesta região, que nos fez diferentes de todos os outros povos de Espanha; e que desde então pouco evoluiu, ficando o mesmo até hoje, e só igual a si próprio.

03-06-2019

Anselmo Vieira

terça-feira, 2 de abril de 2019

NO TEMPO DE D. AFONSO HENRIQUES

Acácio Lino: A 1ª tarde portuguesa

NO TEMPO DE D. AFONSO HENRIQUES

No séc. XII, todo ele preenchido pelo governo de D.na Teresa e por D. Afonso Henriques, a Vila tinha deixado de existir.
Havia em seu lugar três aldeias, as de hoje.
Em Fontão continuavam as antigas atividades, desempenhadas agora por Homens Livres da terra.
As condições políticas e sociais favoreceram sobretudo os negócios pecuários.
Os muçulmanos recuaram para o Sul. Os Normandos passaram as suas razias, e dedicaram-se ao comércio.
Os Cruzados e peregrinos viajaram cada vez mais a caminho de S. Tiago e da Palestina.
Intensifica-se o comércio das carnes, dos curtumes, do sal e do vinho. As vísceras dos animais alimentam a indústria da Dobrada ou dos Callos em todo o Norte de Espanha, desde a Galiza a Navarra.
Nascem assim, os “tripeiros”, comedores de tripas.
Entretanto o rio Podre corre para o Lima, cada vez mais Podre. E a vida, para os Fontanenses, cada vez mais próspera.
Deve ter sido então, que a aldeia nasceu como figura jurídica de Paróquia. O facto é que sendo a freguesia mais pequena que todas as freguesias vizinhas, pagava ao fisco, o dobro de qualquer uma delas.
Quando D. Afonso Henriques entra em litígio com a Mãe, a agitação nesta região deve ter sido muito intensa, como já fora nos tempos, dos desentendimentos desta, com sua Irmã. O vaivém de tropas e de guerreiros era contínuo. E os comerciantes de carnes da região devem ter beneficiado disso; e os criadores de gado.
Ao falecer na Galiza Dona Teresa, o seu filho tentou haver lá, a sua herança. E certamente procurou, na região de entre Minho e Lima, recursos para estas empresas guerreiras. Entrou em negócio com os Homens livres da região. Era o fisco a impor-se.
Os Homens da terra entram no acordo. Mas, também eles, tem algo a reivindicar: A segurança nos caminhos. “Senhor, reina nos caminhos, que nos campos reinamos nós “.
É que no meio de tantas cavalgadas, os salteadores deviam ser mais que muitos e a insegurança...
Deve ser neste contexto que em Fontão aparecem os Serenos que ao mesmo tempo zelariam pela segurança do povo e pelos interesses do Rei. É interessante, que em Fontão a família dos Serenos, permanece ainda arreigada no lugar do Toural...
Nos reinados seguintes, Séc. XII e pelos XIII a região continua próspera. As Cruzadas repetem-se e o negócio prospera.
Chega o reinado de Afonso III. E o séc. XIV. O assoreamento do Lima. A fundação da cidade de Viana, e do seu porto.
Os barcos já não sobem o rio. Carregam em Viana. E o gado passa também a ser abatido nesta cidade.
O rio Podre vai ficando esquecido, e cada vez menos podre. O tear de ouro deixa de trabalhar. O Valo perde vida. O lugar do Talho não tem sentido. Fica o Toural. Mas as Torres já não vigiam nada. Todas estas lembranças se refugiam no subconsciente do Fontanense. A memória foi-se perdendo. Cristalizou na lenda. A lenda do “Tear de Ouro”.
As águas do rio Podre tornaram-se cristalinas. Mas a antiga prosperidade desapareceu para sempre.
E o rio passou a chamar-se rio do Talho, sem que ninguém soubesse explicar o porquê.

24 de Maio de 2013

Anselmo Vieira