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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Como de Ovínia, se chegou a Viana


Como de Ovínia, se chegou a Viana

Do ilustre medievalista Almeida Fernandes, chegou ao meu conhecimento, um dos mais antigos documentos que se referem à terra de Fontão.
Trata-se de um documento do princípio do século X, em que Afonso III, o Grande, Rei das Astúrias, se regozija com a posse do seu novo Feudo; e do êxito dos seus presores, nas terras do Vale do Lima.
O Rei fala com ênfase e entusiasmo, da sua nova posse, e localiza-a no “Velho Vale de Ovínia”. E diz que a sua nova propriedade está limitada, a poente, pelo Rio Podre.
Ora este Rio, é sem dúvida, o Rio Fontão. Ainda hoje limite de terras, num contexto de fronteira entre Fontão e Lanheses, ou circunscrições, entre Ponte de Lima e Viana.
Logo, Fontão, ainda sem identidade própria e sem autonomia, estava integrado nesse Feudo. E o mesmo, integraria os antigos domínios de Bretónia.
Mas de onde vem ao vale, o nome de Ovínia? De ovelhas? Criação de Ovelhas? Ou algum centro administrativo que, sobre o mesmo reivindicasse senhorio ou domínio?
O Rei não o refere. Mas alude à sua frescura e amenidade dizendo que, pelo mesmo correm as
fontes: “Fontans”, ribeiras.
Pesquisei entre os eruditos a origem de Ovínia. Se teria sido alguma cidade. Ninguém mo soube dizer. Fui à internet. Respondeu-me que, de Ovínia, nada consta.
Recorri às minhas reminiscências, antigas lembranças de velhos mestres escutados na minha adolescência. Parece-me ouvir ecos muito diluídos de uma esquecida Ovínia, lá para os lados de Viana. Mas de concreto, nada.
Terá existido uma Ovínia que dominava o Vale do Lima?
Ou seria toda essa região que assim se chamava?
E que relação guardaria o topónimo com a criação de ovelhas?
A região é famosa pela criação de gado bovino, mas o traje típico de terra é, ainda hoje, confecionado com lã. Nos meus tempos de criança, as vestes eram todas de lã ou de linho.
As cores garridas do trajar das mulheres do povo contrastavam com as cores de musgo dos trajes das fidalgas. Mas, a lã das ovelhas é muito gordurosa e de difícil higiene. O uso de urina humana para curtir a roupa e fixar as cores garridas, pode ter sido responsável pela terrível doença da lepra.
Talvez, também por isso, os povos da Palestina, que eram pastores, sofriam desse mal. Na nossa terra, a mesma fazia muitas vítimas. Tanto que os meus professores, espanhóis, me fizeram notar que, por cada três leprosos que havia em Espanha, havia cinquenta em Portugal. Nesta proporção.
Mas voltemos à minha cidade de Ovínia. No alto de Santa Luzia, existem as ruínas de uma antiga cidade cuja memória se perdeu. Desconhece-se-lhe o nome, o tempo em que foi abandonada e porquê.
Vítima da pirataria a que estava exposta, para mim penso mais que foi vítima do vândalo Gêncerico, quando enviou para os Suevos, cem mil guerreiros, ao mesmo tempo que ele atacava Roma. Diz a fama, que entre a Figueira da Foz e a Corunha, não ficou uma ladeia de pé.
Bem pode ser que, a cidade de Ovínia, seja a que jaz no alto de Santa Luzia e que, os seus últimos habitantes, tenham fugido para a escarpa voltada ao mar, de difícil acesso, fazendo assim, nascer um novo povoado escondido, hoje conhecido pelo nome de Areosa. Esse povoado terá dado, na Idade Média, origem a uma paróquia chamada Terra da Vinha, nome que, por qualquer fenómeno linguístico que não sei explicar, terá perdido a primeira sílaba da palavra “Ovínia”, o “O” caiu, e tornou-se artigo, ficando “Vínia”. Por um fenómeno de Onomatopeia, de “Vínia” deu “Vinha”, termo incongruente que o terreno da encosta não justifica. A paróquia da Vinha, já era conhecida no tempo da monarquia Asturiana.
Foi essa paróquia que o nosso D. Afonso III utilizou para fundar a sua “Vila da Vinha”. Mais tarde Viana.
Vinha não tinha sentido, vingou Viana da Foz do Lima, muito mais apropriado porque Viana significa, muito simplesmente: estrada fluvial. “Via”: estrada e, “Ana”: rio.
O rio era, ainda no meu tempo, a estrada principal na região. O movimento de embarcações era intenso desde a foz até ao lugar do Carregadouro, perto de Ponte da Barca e Arcos de Valdevez. Este movimento dava vida ao Cais Novo, em Darque.
A estrada Nacional era ainda recente e as Vias Romanas não passavam então, de velhos caminhos rurais.
A verdadeira estrada era o Rio.
Termino perguntando: Será que Ovínia se refere a criadores de ovelhas? Ou às ruínas de Santa
Luzia?

26-09-2019

Anselmo Vieira

domingo, 28 de abril de 2019

S. Tiago de Fontans


S. Tiago de Fontans

É o nome mais antigo que se conhece, da freguesia de Fontão. Vem do catálogo das igrejas portuguesas do tempo do rei D. Dinis, na História da Igreja Portuguesa, da autoria de Fortunato de Almeida. Era, pois, o nome pelo qual se denominava a terra de Fontão, pelo menos desde o Séc. XIII.
Mas, pelo dito catálogo, ficamos também a saber que sendo a freguesia pequena, pagava de rendimentos ao fisco mais do que o dobro do que era cobrado a qualquer outra das freguesias da região, mesmo daquelas que eram maiores, tanto em riqueza como em extensão. Pagava mais ou menos o mesmo que as duas paróquias da então recente Vila de Viana. Enquanto as freguesias vizinhas pagavam de rendimentos, entre as cinquenta e as setenta libras, a de Fontão estava taxada em duzentas e sete libras.
Porquê tal diferença? Qual o rendimento que justificava este substancial agravamento? Mais uma vez, faltam os documentos. Estamos num ambiente rústico. Mas, temos alguns indícios. E vamos encontra-los na toponímia da terra: S. Tiago de Fontans. As Fontans, isto é, as Ribeiras.
E uma dessas Ribeiras chama-se Rego do Talho. Talvez se chamasse assim já naquele tempo. As águas do Ribeiro deviam correr com aspeto nauseabundo, como insinua o nome porque era conhecido, e que vem no mapa dos serviços cadastrais: Rio Podre. Sinal que o talho era real e se encontrava por alturas do lugar do Retiro, despejando os seus detritos na Ribeira. Esta Ribeira terminava num “Valo”, fundeadouro ou varadouro de pequenas embarcações, que pelo Rio Lima comunicavam com o mar. Nesse Valo ou fundeadouro colocaram os nossos antepassados o lendário “Tear de Ouro”. Que outro significado pode ter este tear, que não seja o de um negócio produtivo?
Mas, continuemos pesquisando a toponímia.
Para montante do Talho e Rio Podre, e seguindo o Rio Velho, encontramos o lugar do Toural e, mais para cima, as pastagens do Ameal e os campos planos das Neves, regadas pelas águas frescas que descem da Silvareira, indiciando também que gados e pastagens são vigiados desde as elevações do lugar das Torres.
Todos estes topónimos, enquadrados num conjunto ordenado e harmónico, nos sugerem uma
intensa criação de gado; e uma florescente industrialização e futuros negócios de carnes e curtumes.
As peregrinações, o turismo desse tempo a Santiago de Compostela e à Terra Santa ou a Roma; e, mais tarde os Cruzados, que nas terras da Galiza e Norte de Portugal, marcavam o seu ponto de encontro, dinamizaram estes criadores e exploradores de gado. Deste modo, o rendimento do negócio aumentou o volume dos encargos.
D. Afonso Henriques aliou-se a estas gentes e deles beneficiou para o seu projecto. Protegeu-os com os seus “Serenos”, guardas da noite, e talvez funcionários do seu fisco, ao mesmo tempo que lhes garantia segurança nos caminhos e vela nas suas noites.
Assim continuava a ser, nos tempos dos seus filhos e seus netos.
Quando terminou esta prosperidade em Fontão?
Tenho para mim, que no momento em que o Matadouro do Toural se mudou para Viana, o Talho passou a ser uma memória fossilizada e, o Rego do Talho deixou de ser o Rio Podre.
Os Fontanenses de hoje, perderam a memória, mas transportam ainda, no fundo do subconsciente, a nostalgia desses tempos ancestrais em que viveram prósperos e foram auto-afirmativos, rejeitando agora as novas realidades, que não aceitam. E é isto que constitui a sua actual singularidade.

Anselmo Vieira

Arqueólogo

quarta-feira, 3 de abril de 2019

FONTÃO

Lethes, tapeçaria de Almada Negreiros

FONTÃO

Freguesia minhota da Ribeira Lima, no concelho de Ponte de Lima. Na margem direita do Rio Lima, entre Lanheses e Bertiandos, e S. Pedro de Arcos. No sopé da serra de Arga. A jusante de Ponte de Lima.
É limitada a Este pelo Rio Estorãos, que corta a veiga na direção do Lima, repartindo a dita veiga, entre Fontão e Bertiandos. Pelo Poente é separada de Lanheses pelo Rio Fontão, à volta do qual a freguesia tem origem e do qual herdou o nome.
São estes dois riachos, ou ribeiros, pequenos cursos de água, cujo caudal engrossa no Inverno e se reduz a um fio de água no Verão, e a que os romanos chamaram fontanas e a que os atuais chamam Rego, Rego da Veiga de Cima e Rego do Talho.
São os dois Marcos da freguesia que a limitam a Nascente, da de Bertiandos; e a Poente, da de Lanheses. Provêm de nascentes naturais, uma dos montes de Estorãos e que atravessa a Lagoa de Bertiandos, corta a Veiga e lança-se no Lima; e o Rego do Talho, que desce do lugar da Silvareira, em S. Pedro de Arcos, entra em Fontão pelas Neves, passa pelo Ameal, Toural, Talho, de que adopta o nome, e morre na embocadura do Valo.
Num dado momento, este Fontanos, teve o nome de Rio Podre. Parece que já na época Suévia se chamava: Podre.
Porquê?
Há, em Fontão um outro Rego, de características muito semelhantes, aos outros cursos de água, referidos; mas que deles se distingue por não ser obra da Natureza. É artificial. E tudo indica ter sido aberto, para drenar as águas da Lagoa, abrindo-lhes caminho para o Rio, com a intenção, de secar o leito da Lagoa e aproveitar os terrenos, libertos da água, na obtenção de pastagens para o gado.
Há outras pequenas nascentes. Como a Fontela, que descia para os Linhares e morria nas Regadas. O rio das Rendas, que brota do Alto da Pena, onde se empoleira o lugar do Carvalhal. E o Rebordelo, com origem na Fonte da Vila, e que passa pelo Portelo, seguindo como os anteriores, para as Regadas, este na Veiga das Sebes. Parece que este último romperia pela Veiga e chegaria ao Rio Lima. Todos morriam nas Regadas, que eram naquele tempo, antes da abertura do Rego da Vala, prolongamento da Lagoa de Bertiandos. Esta atingiria, pelo menos no Inverno, o Rego do Talho.
Esta terra estava, pois, praticamente cercada pelas águas da Lagoa. Não devia ser nada saudável. Nem devia, portanto, ter muitos habitantes, antes da chegada dos Romanos. Talvez só alguns em Estorãos. E pode ser que em território de Lanheses, do outro lado do Rio Fontão, no sítio que parece ter sido, mais tarde, uma Suvidade em frente ao alto de Fontão, do outro lado do Rio.
Era esta terra de Celtas. Da etnia galega, cujo centro era a cidade de Tui. Provavelmente Gróvios e Leuni. Ainda persiste um lugar na aldeia de Parada, chamado Grova. Ocupavam a região entre o Lima e a Ria de Vigo. Exploravam os minerais e criavam gado. Pouco sabemos deles. Só que eram muito bons guerreiros, que tomaram parte na expedição de Aníbal contra os Romanos, e que a sua cavalaria se distinguiu na batalha de Canas. Mas povoações desse tempo nestas terras, quase desconheço.
Foram os romanos que os projetaram para a História, quando o general Décio Júnio Bruto, veio desde as terras de Além
do Tejo, Per Loca Marítima, isto é, pelo litoral.Atravessou o Douro, conquistou as terras dos Brácaros e chegou ao Rio Lima.
Aqui deve ter tido de enfrentar um princípio de insubordinação das suas tropas, que talvez cansadas ou com medo, não queriam avançar mais. Convenceu-os a seguir até Tui. Combateu e venceu os Galegos em Cerdal, no lugar onde ainda hoje se faz a feira de Todos os Santos, e lá se encontram duas mamoas, prováveis túmulos dos soldados mortos no combate. Combateram em S. Pedro da Torre, à vista de Tui. Mas atacar a cidade não se atreveu. Retirou-se rapidamente para o Sul, seguindo à vista do mar. E apressou-se a regressar a Roma, a receber o triunfo, apresentando como desculpa do levantamento das suas tropas, o terror
religioso, que os soldados teriam sentido, de esquecer Roma, se atravessassem o rio, que confundiram com o LETIS.

19 de maio, de 2014.

Anselmo Vieira

terça-feira, 2 de abril de 2019

O Rio da Vala



O Rio da Vala
Não sabemos a data certa em que foi fundada a Vila romana em Fontão. Não há registos. Nem admira. Era, apenas, uma vila rústica. Talvez nem tivesse uma casa de moradia para o seu empresário. Mas temos indícios toponímicos que apontam para a família Gala.
O tempo parece apontar para o governo de Júlio César. Este, pela sua ação, criou a melhor oportunidade para a fixação de colonos Romanos, nesta região. As suas vitórias sobre os autóctones e a respetiva escravização dos mesmos, criou as condições oportunas para a exploração em grande escala, da região.
A família Gala acompanhou o Procônsul quando este veio de Roma, como cliente do mesmo. E, sem dúvida, colaborou com ele e ajudou-o na extorsão e roubo das populações locais, reduzindo-as à escravatura.
A extensão da Vila, incluiria todo o território das freguesias a poente da lagoa de Bertiandos, isto é: Fontão, Arcos e Esturãos.
Os limites iriam da lagoa ao Fontanos, a poente, que limitaria com Lanheses.
Esta exploração agropecuária, deve ter tido um início pujante pelos anos 40 A.C., e estaria baseada na força do trabalho escravo.
Pelos anos 40 D.C., com o governo de Cláudio, teve uma grande oportunidade. Estas terras e os seus donos foram chamados a colaborar na conquista das ilhas Britânicas. Receberam as bases de apoio às legiões, empenhadas nas campanhas, e o encargo de lhes fornecer os necessários reabastecimentos. O Valo do Fontanos deve ter sido aberto nessa altura, e fervilhado de atividade.
Foi o início do tear de ouro...
Mais pecuário que agrário, os donos deste empreendimento viraram-se para a lagoa que os cercava e resolveram drena-la para obterem mais pastagens. Tanto mais que às muitas construções por esta época, como a ponte do Arquinho e respetiva via para Valença e Tui, a ponte de Esturãos e da Veiga de Cima, no mesmo rio, exigia muita carne da exploração.
Nasceu assim a necessidade de abrir uma grande Vala, para enxugar os terrenos da lagoa; e as Regadas que faziam parte da Veiga do Rio Lima.
A grande Vala foi aberta, através da Veiga da Anta, a direito, sem meandros à força de milhares de braços escravos.
Num tempo em que não tinham nascido ainda as aldeias, sob uma direção única e um objetivo indiscutível. E, sobretudo, um mandante poderoso.
O tempo e o mandante, podem estar ligados à época do imperador Teodósio, que era espanhol, casado com a princesa Gala Plácida, que bem pode ter sido dona deste empreendimento.
Não temos outros documentos. Mas a Vala continua aberta, e a drenar as águas da lagoa. Na Vala permanece uma ponte de características romanas: a Ponte Nova, apoiada em dois prolongamentos de calçada romana de mais de cinquenta metros para cada lado, servindo a antiga estrada para Ponte de Lima, na direção da ponte mais antiga, e hoje quase enterrada pelo assoreamento do rio Esturãos, na Veiga de Bertiandos.
Não temos documentos. Mas a Vala lá está. E as pontes. E os pedaços de calçada, lá continuam também. Para não falar já da calçada, que atravessa o poço da Liteira.
Depois chegaram os Suevos. Mas estes não foram mais que inesperados comensais, na mesa dos antigos Senhores. A Vila perde a antiga unidade e divide-se em aldeias.
Os antigos Senhores vão desaparecendo. As populações aprendem a viver sem eles, e a dispensa-los.
A exploração essa continua, e ainda se mantém em FONTÃO.
Pode bem ser, que a nascente do Rebordelo desaguasse nas Regadas e que a abertura para o Lima, fosse devida a nova vala. Nas Seves, Reboleira e Caldeirão aparecem novas valas, nitidamente para enxugar terrenos e melhorar pastagens.


Anselmo C. Vieira

DISSERTAÇÃO Enquadramento Histórico e Apreciações

Afonso Henriques por Soares dos Reis

DISSERTAÇÃO
Enquadramento Histórico e Apreciações

Estes acontecimentos dão-se num tempo em que a freguesia de Fontão era já uma entidade jurídica definida, e em que as circunstâncias adversas tinham desaparecido. Estes tempos viveram-se pelos fins do séc. X, decorrer do primeiro milénio da nossa Era. Na nossa região, Galiza e Norte de Portugal, particularmente a zona da serra de Arga, entre os rios Minho e Lima, atuaram os Normandos, que, entrando pelas Barras destes rios, desembarcaram nas terras limítrofes e assaltaram sem dó nem piedade, as populações residentes, às quais levaram destruição e morte. Não havia defesa. Cada um tinha de valer-se a si mesmo.
Os Fontanenses devem ter-se abrigado nos bosques do Ameal, ou subido pela encosta da Silvareira, para o interior da Serra, onde a defesa era fácil e segura; para só regressarem, quando o perigo passasse.
Pelo rio acima, os barcos Viquingues e respetivas tripulações de piratas, semeavam o pânico e o terror. E isso aconteceu, de acordo com o contexto histórico, dos séculos oitavo ao décimo.
Depois, os Normandos convertem -se ao Cristianismo, e entendem-se com os Naturais. As coisas mudam. De terríveis salteadores, tornam-se irmãos na fé.
Continuam a subir o rio Lima, mas agora como amigos e clientes. Trazem mercadorias. Compram produtos.
Trazem o sal de Ovar. Levam a carne.
O gado, outrora cobiçado pelos piratas, dá agora, lucro aos Fontanenses. Junto ao Ameal aparece agora o Toural. E, mais abaixo, mas logo a seguir, o Talho. É o negócio a prosperar.
A princípio, são somente os Normandos. Mas pelo séc. X, surgem os peregrinos de S. Tiago. Depois os CRUZADOS e guerreiros do Norte da Europa, que rodeiam a costa atlântica a caminho da Terra Santa.
São, também, os guerreiros cristãos das Astúrias e de Leão que se deslocam para sul, nas suas conquistas.
Nasce o reino de Portugal. D. Afonso Henriques alicia os CRUZADOS, para a conquista de Lisboa. E, mais tarde, D. Sancho, para a conquista de Silves.
O negócio prospera. O Rei reclama os seus direitos e quer impor o fisco. Os Homens do negócio enfrentam-no, de peito aberto, com a consciência do seu poder, e exigem a segurança nos caminhos.
Chegam a um acordo:”Óh rei...manda nas estradas... Que nos campos mandamos nós!”. O rei compromete-se com a segurança nas estradas. Os seus homens de negócio, garantem o trabalho.
É, talvez, nessa altura que nascem as Torres, lugar de vigia sobre o Ameal e o Toural. E são introduzidos os Serenos, vigilantes da noite, e representantes do rei e dos seus interesses, junto dos homens de negócio, em Fontão. E tem origem uma nova família.
E o tear de ouro, no Valo do Rego do Talho funcionava agora, seguro nas mãos dos Fontanenses.
Alimentam o negócio as guerras de conquista no Alentejo. A conquista do Algarve. A campanha das Navas de Tolosa e do Salado.
Na conquista de Ceuta, as carnes do Norte alimentam os guerreiros. O Povo contenta-se com as vísceras. Nas caravelas dos descobrimentos a carne continua ao serviço da Pátria. Talvez tenha embarcado com D. Sebastião para a atípica expedição.
Depois, o portinho morreu. Caiu no esquecimento. O rio deixou de ser podre...O Talho perdeu o sentido. O Tear virou Lenda.
Há muito que Viana substituíra o matadouro. Desde o séc. XIV, os barcos não subiram o rio Lima. O Talho ficou sem serventia. A família dos Serenos ficou sem trabalho. Mas os Fontanenses ficaram agarrados à criação de gado, até ao dia de hoje.


Anselmo C. Vieira

domingo, 31 de março de 2019

OS NORMANDOS


OS NORMANDOS

Estes povos deixaram marcas profundas em toda a Galiza e Norte de Portugal, mas quase foram esquecidos. No entanto, quase tudo que entre nós se atribui a tradições do paganismo, lhes é devido.
Chegaram cá a princípios do séc. IX, vindos da Dinamarca, Suécia e da Noruega e puseram a Galiza e Norte e Centro de Portugal a ferro e fogo. Os povos da margem do Lima devem ter vivido um inferno.
No séc. X, uma esquadra de 200 barcos ataca a cidade de Tui. E pouco depois a zona de Coimbra.
S. Rosendo, bispo de Mondonhedo, lutou contra eles a mando e às ordens do rei das Astúrias. A cidade de Guimarães, nasce dessas lutas. E o seu castelo ergue-se para defesa.
No séc. XI, aos antigos Viquingues juntam-se outros: Francos, Saxões e Holandeses.
Relacionam-se com os naturais, criam as salinas de Aveiro, e deixam os barcos Moliceiros no sal de Aveiro. É provável que tenham introduzido o gosto pelo Bacalhau. O sal de Aveiro pode ter salgado as carnes de FONTÃO.
D. Sancho I buscou entre eles maridos para suas filhas. Casou uma com o rei da Dinamarca, e outra com o rei da Noruega.
Nesse tempo ainda Fontão gozava duma economia próspera. E, provavelmente, foi no séc. XII, que se tornou uma Paróquia e Freguesia autónoma.
O ermamento, deve, pois, ser revisto à luz destas lutas e calamidades. A instabilidade e a insegurança reinaram nós séc. VIII, IX e X. As guerras, assaltos, saques, sequestros e levas de prisioneiros, vendidos como escravos. As matanças e todo o género de violências de que estas populações foram vítimas.
Apesar de tudo, os que resistiram foram capazes de garantir a continuidade. Forjaram o seu carácter e modo de ser, que é o seu carácter, ainda hoje.
Os nomes germânicos que se sucedem na Toponímia portuguesa, originam -se nestas épocas. Mas a Toponímia Fontanense manteve-se, fundamentalmente latina. Sinal de continuidade.

Anselmo Vieira

sábado, 30 de março de 2019

NORMANDOS


NORMANDOS

Foi a força Normanda que possibilitou a formação do Reino da Galiza e do Norte de Portugal. Possibilitou e forjou a idiossincrasia e o carácter o povo desta freguesia: Fontão.
Primeiro, porque foram os Normandos que tornaram impossível a vida Muçulmana nestes lugares. Atacaram os Muçulmanos e tornaram-lhes a vida impossível nestas regiões. Criaram o vazio de poder que permitiu e facilitou as atividades dos Presores Asturianos.
Mas, ao mesmo tempo proporcionaram a oportunidade de as populações locais se desembaraçarem dos antigos senhores e dirigentes, e de tomarem em suas mãos, a orientação dos seus destinos. Livres de antigos dominadores, adquiriram o gosto da liberdade e assumiram a sua autonomia, caminho para a Independência.
As presúrias cristãs da Galiza, devem-se à chacina implacável dos elementos Islâmicos. E foram os ataques Normandos os responsáveis por estas ferozes matanças.
Desde os princípios do séc. IX, os Normandos foram aparecendo no litoral da Galiza e Norte de Portugal.
Encontraram um povo que não lhes resistiu, e uma autoridade frágil, porque bisonha e de recente implantação. Estranha ainda às populações locais. Era Islâmica, e não Cristã. Fragilmente implantada, desertou rapidamente para Sul, deixando o campo livre.
Os Normandos não estavam interessados na ocupação. Pretendiam o saque e fazer cativos. Os Naturais, desorientados, espantados, foram sobrevivendo, fugindo e regressando repetidamente às suas terras, sem nunca as abandonarem.
A vida tornou-se-lhes um inferno, mas sobreviveram. A serra de Arga, foi o seu refúgio…
Entretanto, das Astúrias começam a chegar outros Cristãos. Com eles vem um princípio de autoridade e de organização.
Os Normandos começam a aderir ao Cristianismo. É possível um princípio de entendimento. De antigos piratas, os Homens do Norte tornam-se comerciantes. É possível o negócio...
O inimigo comum é agora o Muçulmano. Vai ser ele a vítima.
Os Galegos aceitam a autoridade Asturiana, mas sem muita convicção. E os Normandos estão mais do lado das populações locais.
Os Homens do Norte: Viquingues: Saxões, Francos, Ingleses, Holandeses, … chegam agora como comerciantes, mas também como peregrinos a S. Tiago de Compostela.
Com a sua ajuda, a economia Galega fortalece-se e cresce. O poder Asturiano sente dificuldades para impor-se, e é contestado.
À frente das populações locais, estão agora estes Francos ou Saxões, que organizam novas presúrias e criam no norte da Península, a convicção ainda hoje tão arreigada de que os estrangeiros são sempre melhores, e que basta ser soldado estrangeiro para ser bom oficial...
É à frente das populações locais, que estes estrangeiros levam a efeito grandes razias e criminosas chacinas sobre os restos das populações muçulmanas, que se encontram dispersas e desprotegidas.
E não é de boa vontade, que se submetem aos reis das Astúrias.
É o tempo das salinas de Aveiro, e da exploração pecuária e das carnes, nas margens do Lima e do Minho. Da exploração da carne bovina, dos curtumes e da indústria da tripa, aproveitamento das vísceras, os Callos galegos, Dobrada à portuguesa.
A prosperidade surge. A economia cresce. A ambição nasce. A rebeldia manifesta-se, frente ao poder Central.
Aproxima-se o aparecimento dum novo reino. D. Teresa e D. Afonso Henriques estão à porta.


Anselmo C. Vieira

sexta-feira, 29 de março de 2019

A Indústria da Dobrada e o Rio Podre



A Indústria da Dobrada e o Rio Podre

Rio Podre foi o nome que os antigos, talvez Romanos, deram ao rio de FONTÃO. Podre? Porquê?
A indústria das carnes. O aproveitamento das peles e das vísceras. A indústria das tripas. As peles curtidas nas águas do rio. As vísceras lavadas nas águas do mesmo. A indústria alimentar de los Callos usados na alimentação dos Galegos, dos Asturianos e dos Vascos. De todos os povos Cantábricos. Prato típico do norte de Espanha.
A origem das tripas à moda do Porto. Estava desvendado o enigma.
Houve tempos em que, inserido nesta economia, lá por fins do primeiro milénio, florescia nesta terra, que hoje é Fontão, um nicho de comércio florescente, baseado na exploração de gado bovino e na industrialização das suas carnes. Era no tempo dos reis das Astúrias.
As lutas com os Muçulmanos fazem movimentar os exércitos. E estes necessitam de ser abastecidos.
Do Norte chegam bandos de Cruzados, a caminho da Terra Santa, e marcam encontro nestas paragens da Galiza.
As peregrinações a caminho de Compostela, trouxeram muitos devotos, e vitalidade a esta economia.
Fontão estava integrado nesta economia e participava nela.
Em terra ficariam os miúdos dos animais, para alimento dos naturais. As vísceras para serem tratadas e transformadas nos Callos, Dobrada utilizados, provavelmente na alimentação dos pobres ou de todas as populações do Norte Cantábrico.
O rio ficaria decerto pútrido ou com esse aspeto, fruto destas atividades.


Anselmo C. Vieira

FONTÃO, VILA ROMANA



FONTÃO, VILA ROMANA
A Vila de FONTÃO estava bem localizada. Bem servida pela Via que do Porto se dirigia para Tui. E esta Via entrava em FONTÃO pela ponte do Arquinho, construída na Veiga das Patas. Subia ao lugar da Bouça Velha, ladeava a Veiga do Talho e, pelo Retiro, pelo Rego e Lomba, entrava pelo Lugar das Necessidades, na freguesia de S. Pedro de Arcos; passava pela Gala e dirigia-se para Esturãos, cujo rio vencia em nova ponte, rodeava a lagoa de Bertiandos e dirigia-se para Arcozelo em Ponte de Lima, donde seguia para Tui, capital destas terras, naquele tempo.
Ainda na ponte do Arquinho, a Via Romana bifurcava-se. Ladeava pelo Sul, a Bouça Velha, e dirigia-se ao Rebordelo pela quingosta da Gala, atingia o Souto, atravessava a Arca e, bordejando as Regadas, dirigia-se, entre os Poços e os Linhares, seguia pela Bouça do Homem, para a Veiga da Anta, passava onde é agora a Ponte Nova para a Veiga de Cima e pelo poço da Liteira, onde se vê ainda calçada romana. Atravessava para Bertiandos por nova ponte, sobre o riacho a pouca distância da sua foz.
A Vila agregava todo aquele território que hoje se divide pelas três freguesias: Fontão, Arcos e Esturãos.
Como podemos imaginar, eram terras húmidas, pantanosas, encharcadas ao lado duma lagoa, que não abonava da salubridade do seu clima. Por isso não seria muito povoada. Mas eram ricas de pastos.
Talvez por isso, atraíram a atenção dum empresário Romano, que nelas viu a oportunidade de fundar uma empresa pecuária de criação de gado bovino. Não sabemos quem foi o Romano que se aventurou. Mas o nome GALA aparece como nome de um Lugar em S. Pedro de Arcos. E em Fontão aparece a quingosta da Gala.
GALA era o nome duma família Romana, cliente da família Júlia, que vivia do negócio do leite. Esta família acompanhou Júlio César, quando este veio como governador para a Espanha. Bem pode ter sido esta família que esteve na origem da Vila.
Desconhecemos as suas dificuldades e êxitos. Mas o governo do imperador Cláudio e a conquista da Inglaterra, no tempo do mesmo, trouxeram a esta região e a toda a Galiza, uma grande atividade construtora de vias e grandes movimentações de tropas. Aqui ficaram muitas das bases de apoio às legiões que operavam na Grã-Bretanha. É provável que estas atividades tenham ajudado a vingar e incrementar o empreendimento da Vila.
Naturalmente baseado no trabalho dos escravos, o Senhor progrediu e aumentou o seu poder. Só isto pode explicar a abertura do rio da Vala, que exigiu certamente um grande esforço e comandamento unitário. Esforço que se justificaria, mesmo que feito a título particular, para aumentar e melhorar as pastagens.
Mas da vida desta Vila, nós ignoramos; porque, dela tudo foi esquecido.
É provável que a unidade deste empreendimento tenha sido posta em causa com a chegada dos Suevos.
Penso que foi durante o tempo Romano propriamente dito, que o Fontanos se tornou no rio Podre, devido ás épocas das matanças, quando nele se lavavam as carcaças e se lhe arremessavam os detritos dos animais abatidos indústria dos curtumes, ao aproveitamento das vísceras, indústria da Dobrada; talvez, para alimento dos escravos.
Em toda esta época, desde a Galiza até às Vascongadas se espalha esta gastronomia CALLOS e tripas à moda do Porto, em Portugal. Ainda hoje se mantém.
Uma segunda fase tem começo no séc. VIII. Foi quando os Árabes chegaram à Galiza, e encontraram aqui o reino dos Suevos, federados com os Visigodos. Os Árabes perseguiram e destruíram todas às estruturas de poder, e decretaram a libertação dos antigos servos ou escravos. Todos passaram a ser livres e senhores dos seus destinos, sob a autoridade do novo conquistador.
Os antigos senhores desapareceram. Mas a vida continuou. Era preciso continuar o trabalho. A vida continuava, agora mais responsável. Cada um dependia de si. A vida parecia a mesma, nos mesmos locais, nas mesmas canseiras. Mas, agora livres e responsáveis.
Isto explica a manutenção da Toponímia e a sua continuidade.
Mas a surpresa vem, agora pelo mar. E subiu pelo rio…
Aparecem os Viquingues. Normandos vem parar saquear, roubar, recolher cativos para vender como escravos. Vem, assaltar, roubam, matam, cativam e retiram. Mas voltam novamente e surpreendem sempre. No Alto de Fontão, os Árabes erguem uma torre de vigia, uma Giralda. Mas inútil. Os Normandos voltam sempre. A fuga é o único remédio. Os Muçulmanos retiram para o Sul. Os Fontanenses, certamente para a serra de Arga. E a vida, desamparada de um poder central torna-se um inferno. A serra de Arga é o seu refúgio. Num lugar combinado, o Retiro, juntam-se com os seus haveres e o seu gado e fogem para a serra onde podem demorar o tempo necessário. Abandonados de qualquer poder central, tornam-se serranos, da serra que os protege: Arga.
Livres dos antigos senhores, escorraçados os Árabes, os antigos servos da Vila Romana estão sozinhos, entregues a si mesmo.
Mas são autónomos, autoafirmam-se.
Em Aveiro os Normandos exploram as salinas. Evoluem do saque para o comércio. Convertem-se ao Cristianismo.
Direcionam a sua fúria guerreira só contra os muçulmanos. Aliam-se aos cristãos. Os reis das Astúrias preparam a ofensiva.
Chegam outros tempos.
Na Vila Romana os naturais conseguem entender-se com os antigos agressores. Ao entendimento, segue-se o comércio.
A prosperidade regressa. Aproximam-se os tempos dos Presores. A reorganização das Paróquias. Os reis das Astúrias aproveitam o vazio para imporem a sua autoridade e o seu fisco.
Na antiga Vila Romana o gado pasta no Ameal e na encosta da serra. No Toural reúnem-se os reses a abater. O Rio Podre, apodrece ainda mais. No Valo fervilham as embarcações. E os carregamentos de peles e de carnes sulcam o Lima em direção ao mar.
Depois vem os peregrinos de S. Tiago. São os turistas daquele tempo. E os negócios incrementam-se.
Por último, surgem as Cruzadas. Mesnadas de guerreiros marcam encontro na Galiza, a caminho da Terra Santa. Era preciso fornecer estes guerreiros.
Os lucros comerciais aumentam. A economia progride. A Galiza impõe-se no contexto social cristão do Norte de Espanha, fruto da sua florescente economia. A Vila de FONTÃO acompanha este movimento. Entretanto nasce um novo Reino: Portugal. É em Portugal, que de futuro se reúnem os Cruzados a caminho da Terra Santa.
O novo rei necessita de recolher impostos e impõe o fisco a troco de defesa. A segurança nos caminhos é a condição da aceitação. Aí está o lugar das Torres a atesta-lo. Em frente ao Ameal, de vigia aos gados e às pastagens. E a família dos Serenos, certamente guardas régios, garante a segurança e o recebimento dos impostos.


Anselmo C. Vieira

quinta-feira, 28 de março de 2019

TOPÓNIMOS



TOPÓNIMOS

Foi o meu Pai que me meteu na cabeça o bichinho da curiosidade, quando me contou que na foz do rio do Talho, existia um tear de ouro enterrado na areia. Isto nunca mais me saiu da ideia.
Aprendi que uma lenda não era uma verdade. Mas, também aprendi que uma lenda, esconde uma verdade esquecida.
Por isso, tentei desvendar a verdade que esta lenda encerra.
Chegaram-me às mãos muitos papéis com histórias de personagens, capelas e figurões importantes, mas que não encaixam com o tema que me preocupava.
Virei-me para a toponímia dos Lugares. Verifiquei que a Veiga que estava mesmo em frente do possível tear se chamava: Veiga do Valo. Ora valo, é um fundeadouro onde ficam ancorados os barcos. Logo, o fundeadouro ou ancoradouro, onde se encontra o tear, dá nome à Veiga, o que indica que é mais importante que a mesma, já que é lugar de referência.
Logo a seguir, para montante, segue-se a Veiga do Talho. Talho pode ter muitos significados, mas, o mais importante é o que se torna referente. Não é o talho da Veiga, mas a Veiga do Talho. E o rio do Talho prolonga-se até um ponto em que deixa de chamar-se do Talho e passa a chamar-se para montante, rio Velho. Certamente para designar maior antiguidade. Tudo isto parece indicar que no rio, anteriormente conhecido, se localizou um talho tão importante que influenciou todo o posterior historial do rio, até lhe modificar a toponímia. E o local do tal Talho, bem pode ser um sítio onde hoje se localiza uma “Eira” que é anacrónica pela sua localização e por ser a maior de Portugal. Para montante do rio fica o Toural e a seguir as Torres e o Ameal.
A partir de um certo tempo, o Rio deixa de chamar-se do Talho e passa a chamar-se: Rio Podre. Porquê?
Às pastagens do Ameal, o Toural, o Talho, o tear do Valo, tudo nos leva a pensar tratar-se de negócios da criação de gado bovino e suas carnes e peles. O rio Podre do Talho para a foz insinua a lavagem das carcaças, dos desperdícios deitados para o rio, e da lavagem e aproveitamento das vísceras. Pensamos ainda, na indústria da tripa, a dobrada, que deu origem ao prato gastronómico: Tripas à moda do Porto.
Neste contexto a palavra Toural ganha relevo. Nada de figurões, mas gado. A economia da carne e do gado bovino, tão abundante nestas regiões, e que tanto atraiu a atenção de povos antigos como os Gregos, que aqui puseram o décimo trabalho de Hércules, roubando, na Corunha, os bois de Gerião.
É nesta linha de economia que se encaixa a vivência esquecida e arrumada, no inconsciente da alma Fontanense.
Houve, pois, um tempo em que em FONTÃO se desenvolveu uma florescente criação de gado bovino e um rico comércio de carnes e curtumes. Este comércio formatou a alma Fontanense. Depois tudo se apagou e desapareceu. Mas, quando e porquê?
É o que vamos averiguar.
Como surgiu esta atividade? Como se desenvolveu? Quais os seus períodos? Qual o seu esplendor? Porque desapareceu? Quando?
Porquê, sendo Fontão, uma pequena freguesia e pobre, pagava ao fisco o dobro das freguesias vizinhas?
Porquê sendo Fontão uma freguesia de criadores de criadores gado e não agrícola, tem a maior eira de Portugal?
4 de maio, de 20l3
Anselmo C. Vieira

FONTÃO Um fóssil arqueológico na Ribeira Lima


FONTÃO

Um fóssil arqueológico na Ribeira Lima

Sendo eu criança, fui limpar de pedras um terreno no campo dos Linhares e encontrei uma pedra em forma vértebra.
Formava um conjunto de três vertebras seguidas por um apêndice de umas cinco vertebrazinhas. Muito mais pequeninas. Parecia um fragmento d’uma coluna vertebral, de um grande animal. Fiquei muito admirado que uma pedra pudesse adquirir aquela forma, que hoje estou convencido tratar-se de um fóssil. Mas, na altura eu teria uns onze anos. Nunca tinha ouvido falar de fósseis.
Lancei o que pensava serem pedras para o monte. Mais tarde foram destinadas a tapar buracos nos caminhos.
O povo Fontanense é um caso sério de antiguidade, na região do Alto Minho. A sua proximidade ao rio Lima poderia levar-nos à conclusão, que se trata de gente ribeirinha, de trato fácil e suave como os vales em que labuta. Nada mais enganoso.
Os Fontanenses revêem-se nas encostas da Serra de Arga. Na sua áspera rudeza. De costas viradas para o rio. Nem reparam nele. Tem o gesto brusco e tosco das ásperas gentes serranas. Olham para a Serra, como se fora a sua casa. E estão sempre dispostos a subi-la, seja a pretexto da romaria de S. João, da Senhora do Minho, se não simplesmente, a S. Lourenço da Montaria e seus enchidos.
Do rio, temem mais os perigos e as novidades, do que espreitam as oportunidades. Fechados, desconfiados não aceitam libertadores estranhos.
À maneira antiga, discutem as decisões a tomar. Mas, depois, são muito unidos e determinados... Se pressentem uma imposição estranha, rejeitam-na, em atitudes inesperadas, desajeitadas e contundentes que deixam desconcertado, o intruso. São muito fiéis às suas tradições, e conservadores nos seus costumes.
Como seus ancestrais, dedicam-se à criação de gado bovino; e ainda a conservam, juntamente com a produção de carne, como sua atividade principal.
Ocasionalmente, dedicam-se à produção mineira como os antigos, sempre que a ocasião o proporcione. E sempre na dependência da Serra.
As mudanças foram-lhe sempre impostas do exterior e aceites a contragosto. A conquista Romana primeiro; e a respetiva colonização. Depois, o cristianismo triunfante no séc. IV. A seguir, a conquista Sueva e a Muçulmana, apesar de esta lhes ter trazido a liberdade! A libertação da escravatura. Já quase no nosso tempo, a invasão da Estrada Nacional, de Fontes Pereira de Melo; seguida pelo fracassado projeto do caminho de ferro do Vale do Lima, no tempo do Estado Novo.
Estes projetos abriram na freguesia um desgarramento tal, que quase lhe mataram a alma. Nunca foram totalmente aceites, nem assimilados. Por isso, Fontão e os Fontanenses, aparecem ao observador estranho como um fóssil civilizacional, ferido e traumatizado, que o esquecimento da memória torna ainda mais desconcertante e trágico.
Assim, o Fontanense aparece ao estranho como alguém que perdeu algo, e não sabe o quê. Também a mim, Fontão se me apresentou como um enigma. Enigma que através das minhas cogitações, tentei decifrar. Penso que o consegui.
Ficaria feliz, se as minhas conclusões funcionassem como uma análise psicanalítica para alívio e libertação da alma Fontanense e sua cura.
É, pois, o enigma de Fontão que me proponho decifrar ou, pelo menos, motivar alguém mais douto e mais clarividente, que o faça, depois de mim.

NOTA: O fóssil que encontrei nos Linhares devia ser de um animal bastante corpulento. Pertencia às vertebras, às três ligadas à cauda. A maior pesaria quilo e meio. Seguia-se uma cauda que devia ter sido minúscula, composta de umas cinco vertebras ou mais. Todas tiveram o mesmo destino: o buraco dum caminho...


Anselmo Vieira

terça-feira, 26 de março de 2019

O ENIGMA DE FONTÃO



O ENIGMA DE FONTÃO

Fontão é um caso sério de se entender. Pequena freguesia Limiana, está cheia de contradições. O nome vem-lhe dum riacho que corre em toda a sua extensão a poente, separando-a da vizinha freguesia de Lanheses.
Ao riacho chamaram os antigos: Fontanus. Nome que vem da Alta Idade Média, ou, talvez, dos Romanos que a antecederam. Mas o riacho passou a chamar-se: Rio Podre, parece que já antes do Séc. VI ou dos Suevos. A terra por onde o riacho corria herdou-lhe, então o nome, e veio a chamar-se: FONTÃO. É daí, que veio o nome da freguesia.
Mas o riacho encontra-se com o rio Lima, num valo, ou fundão, onde outrora, ancoravam pequenas embarcações puxadas à vara, era um varadouro. O valo existe, ou existiu, e tem em frente uma veiga que dele recebe o nome: a Veiga do Valo.
Mas, em Fontão, ninguém se dá conta disso!...
O rio Podre volta a perder o nome, e passa a chamar-se rio do Talho, e a sua veiga, Veiga do Talho. Mas onde está o Talho? Nem se suspeita dele.
O rio do Talho ou rego do Talho desaparece pouco acima. Mas continua no Rio Velho, no Lugar do Rio Velho, e ninguém repara.
Seguindo para cima, chegamos ao Toural. Mas, que Toural? Parece que ninguém se dá conta. Existe a família dos SERENOS! Em Fontão, porquê? Que faziam os serenos em Fontão? Quer dizer: os nomes existem. Mas não significam nada.
Como é possível?
Existem as Torres. O lugar das Torres. Que Torres. Para que serviam?
Existe o Alto da Giralda. A Giralda existiu no alto da Vitória. Quem a ergueu? Quem a levantou? Ninguém se preocupa de o saber.
Existe a estradinha nova. Quando foi construída? Por quem? Onde estão as velhas?
Existe a Ponte Nova, no Rego da Vala. Quais eram as velhas?
Há tantos topónimos em Fontão, que nada significam aos atuais Fontanenses, e a nada correspondem.
Não será isto um anacronismo?
Mas é a isto que eu chamo, o Enigma de FONTÃO. Ou melhor, também a isto. E é isto que pretendo desvendar.
Anselmo Vieira

1 de maio, de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2019

Nas origens de Fontão



Nas origens de Fontão
Desconhecem-se as origens de Fontão. Terra e gentes de caraterísticas acentuadamente rústicas, não teve “certidão” de nascimento. Ou, se a teve, perdeu-se com o andar dos tempos. Mas, a Arqueologia pode preencher esta lacuna.
Penso que o berço da “terra” se poderá encontrar no pequeno “Outeiro” que é agora o Lugar dos Remédios mas ainda ninguém o confirmou…
Os dados arqueológicos dizem-nos que por aqui se afadigaram muito os Romanos, desde pelo menos cem anos antes de Cristo. De fato, estes deixaram-nos pelo menos três pontes, cujas técnicas os estudiosos concordam, sem dúvida, atribuir-lhes. São elas: a Ponte do Arquinho, sobre o Rio Fontão, na veiga das Patas; a Ponte Nova, sobre o Rego da Vala, na Veiga da Anta; e, na Veiga de Cima, a Ponte sobre o Rio Estorãos que dá passagem, de Fontão para Bertiandos. Todas estas pontes seguem, num troço de uma via secundária Romana que vinha do sítio do Barco do Porto, em Serreleis, e por aqui passava em direção a Ponte de Lima. Era o antigo caminho medieval, que serviu a freguesia desde o tempo dos Romanos, senão antes, e o único até há bem pouco tempo.
A ponte do Arquinho, ou das Patas, liga Lanheses a Fontão. Penso que tem três arcos e uma calçada de grandes lages. A partir desta ponte a Via Romana sofre uma bifurcação em dois braços: um que se dirige para a Serra e segue pela antiga estrada de Valença para a ponte, também Romana, de Estorãos; outro braço que bordeja as Veigas do Rio Lima e pelas “Regadas” segue pela Arca, Souto, Linhares para a Ponte Nova, na Anta e dali para a Veiga de Cima, para entrar em Bertiandos, na Ponte sobre o Rio Estorãos. Esta é a segunda ponte.
Estas duas pontes são as mais antigas, talvez uns trezentos anos mais velhas que a Ponte Nova. Daí o nome desta.
Estes dois braços de caminho justificam-se, talvez, pelas dificuldades que haveria no inverno de vencer o obstáculo da Lagoa de Bertiandos que se atravessava pela frente. A Lagoa deve ter sido, nos tempos de construção destas pontes, muito maior, mais extensa e difícil de vencer. Devia prolongar-se por aquilo que em Fontão chamam as Regadas e que se prolongam por toda a extensão das Veigas do Rio Lima, entre estas e a freguesia.
Estas pontes e os respectivos caminhos que servem foram edificados e abertos no tempo do Imperador Cláudio, como obras de apoio ao seu empreendimento de conquista da Inglaterra.
Por toda a Galiza foram construídas bases de apoio às Legiões que operavam na ilha Britânica.
A Ponte Nova é muito mais recente e moderna. Tenho para mim que foi obra dos tempos do Imperador Teodósio ou de seu pai, governador da parte ocidental do império e que pode ter sido o dono destas terras. Ele, ou a sua família ou a família da sua mulher. Provavelmente para obtenção de novas áreas de pastagens, enxugando os terrenos pantanosos pelos quais a lagoa se estendia. Trata-se pois, de um empreendimento destinado a incrementar as actividades pecuárias.
O projecto era constituído pela abertura de um canal entre a Lagoa e o Rio Lima para escoar as águas da mesma e drenar os terrenos circundantes, enxugando-os.
Como esse canal ou vala atravessava uma via principal, muito importante para as populações locais, foi necessário incluir nas obras uma ponte, cujo nome não se sabe, mas que os naturais chamavam, muito simplesmente, Ponte Nova. Certamente por relação à ponte mais antiga sobre o Rio Estorãos, da qual fica muito perto.
Estas obras exigiram um esforço tão colossal em gastos e mão-de-obra que, talvez só a família Imperial estivesse em condições de executar.
Esta Vala e esta Ponte constituíram uma obra verdadeiramente espantosa, mudaram a fisionomia destes sítios. Aumentou e melhorou as pastagens e as possibilidades pecuárias desta terra, até aos dias de hoje. Melhorou as condições sanitárias da região e os terrenos de cultura. Dotou a freguesia de mais um rio: o Rego da Vala.
A maior parte dos terrenos, antes cobertos pela Lagoa, tornaram-se verdes pastagens, que ainda hoje permitem uma rica economia pecuária.
Anselmo Vieira

(Arqueólogo)