sábado, 29 de junho de 2019

Ao sabor do tempo que passa

acrílico s/tela - Júlio Capela

Ao sabor do tempo que passa

Hoje, desloquei-me para espairecer até Valongo.
É sábado, dia de feira na cidade. Entro no meio de trânsito intenso. Para mais, a campanha para as Europeias está no auge. Numa rua são as bandeiras da CDU. Noutra os Bloquistas. Mais até o PPD. E a seguir o PS. E outro. E outro mais além.
Os mirones e os basbaques param pelos passeios e abrem as bocas, ou arregalam os olhos para os chamarizes das montras e das vitrines.
Há o aperto das tendas e dos balcões, de tudo o que atiça a curiosidade de uns, e a cobiça dos outros.
“É a feira da aldeia”, com tudo o que significa e implica.
Entro na balbúrdia. A velocidade é lenta porque o bulício da rua, isso implica.
Qual não é o meu espanto, quando deparo cruzando-se comigo, um camião carregadinho de garrafas de gás, parado no meio da rua, a repartir botijas, pelos estabelecimentos das redondezas. Ali mesmo! No centro da cidade. Aquela hora! Indiferente à multidão!…
Encho-me de indignação. Mas como é possível aquele perigo, àquela hora. Por entre uma multidão de incautos. Que andam a fazer os nossos deputados e o nosso Parlamento, que nos deixa assim expostos ao perigo? Porque é que uma viatura daquelas, com aquele carregamento, se apresenta num lugar público, àquela hora, naquele dia?
E, se acontecer o pior, um abalroamento por exemplo, e a consequente explosão? E, se houver muitos mortos? O que vai ser a choradeira? Quando carpir for inútil, onde encontrar os responsáveis? Para que servem as campanhas de votos? Para encontrar emprego, sem cuidar de responsabilidade.
Sinto-me maldisposto. Incomodado, mas impotente… Os néscios ao Poder…
Sentado num café acalmo, lendo o jornal. E olho pela vidraça. Mesmo à minha frente segue, penosamente, por entre o trânsito e a multidão, o camião carregado de botijas, fornecendo os estabelecimentos. Mas, por Deus, que por hoje, não houve nada…
A quem nos entregaram os nossos votantes.

Maio, 2019

Anselmo Vieira

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Azenhas no Rio Coura


Azenhas no Rio Coura

Por um destes afazeres da vida, que por vezes nos batem à porta, aconteceu-me receber em casa, um aviso das finanças de Paredes de Coura, notificando-me para o pagamento da contribuição, por um, prédio na freguesia de Bico.
Estou com sorte, pensei. Possuo um prédio em Bico e nem o sabia. Apresentei-me no registo de finanças, para que me indicassem qual o prédio e a sua localização.
Para minha surpresa, era verdade!
Fizeram-me ver que a minha esposa é comproprietária de um moinho de água, azenha, na margem direita do rio Coura, uns duzentos metros a jusante da ponte dos Cavaleiros, Freguesia de Bico.
Tratei logo de visitar a tal nova fortuna, que sem contar, me vinha cair em posse.
Bem, a azenha lá se encontra em completo estado de abandono e degradação, empoleirada num penedo mais saliente e penosamente agarrada à ladeira da margem, numa última tentativa de fugir às águas
tumultuosas, que a investem por todos os lados. É este o prédio, que sem contar, me veio cair às mãos.
Pus-me a contemplar em volta, e confesso que fiquei encantado pelo sítio. Do lado oposto do rio, mais três ou quatro moinhos, um deles ainda a funcionar, faziam companhia ao que me coubera em sorte.
Igualmente apoiados na granítica penedia, por entre a qual bramem as águas do Coura, saltitantes, de cascata.
Nas margens um maciço de aveleiras, formando renques que delimitam coutadas. As águas rumorejantes ouvem-se à distância e juntam a sua frescura à da sombra de Carvalhos e Lodeiros que
igualmente se banham, nas águas tumultuosas.
As redondezas, ermas, tem aspeto fresco e acolhedor. Convidando à contemplação, num sossego agradável e delicioso.
A contrastar com a simplicidade rústica dos moinhos, e a beleza selvagem do Coura, a montante das azenhas, rompe aqueles ermos, um caminho milenar e, nele, a famosa ponte dos Cavaleiros, obra de engenharia Romana, de um só arco em volta perfeita, encavalitado em ciclópicos penedos de granito. O arco construído com pedras primorosamente talhadas, de beleza severa, mas nobre e calma, dá apoio a uma calçada bem lançada sobre o mesmo, permitindo-lhe numa passada clássica e elegante, vencer a torrente, indiferente à bruteza dos elementos.
Ao lado da ponte, umas alminhas modestas, adornadas com flores artificiais, tranquilizam o viajante que se aventura por aqueles páramos sombrios e rumorosos.
Mais acima, para o sul, a remendar uma praia, o poço do Trogalho, que antes alimentou de água, as azenhas, recebe agora os garotos das redondezas, que no verão ali tomam banho, e alguns aprendem a nadar.
E agora pergunto: Como é que o turismo de Coura ainda não reparou neste conjunto maravilhoso e o deixa ao abandono?
Atenção, Pelouro da Cultura!


Anselmo Vieira

A querela da Avaliação

No noticiário de ontem, 26 de junho de 2019, transmitiram uma notícia afirmando que “Alunos de famílias mais pobres e com menos estudos não conseguem entrar nos cursos com notas mais altas”. Lembrei-me então, de um artigo que redigi em 2010, mas que mantive até hoje como inédito.

A querela da Avaliação

Terminou a querela da avaliação…
Os professores saíram derrotados.
O governo de José Sócrates, a pretexto duma hipotética avaliação, tirou-lhes o pão da boca e conseguiu um apreciável arejamento das Finanças Públicas. Afinal, era isso que pretendia; e os seus apoiantes já nem o dissimulam.
Mas não foi esse o fim dos males. Bem pior foi a precarização da Carreira Docente.
Fez-se um acordo. Os políticos, de todos os partidos, não escondem a sua satisfação e esfregam as mãos de contentes… Para compensar lançam o engodo do topo da carreira que todos poderão atingir… Consolo para tantos…
Os professores foram enganados, se não, atraiçoados pelos que lhes prometiam apoios a troco de filiação ou de votos. Agora jazem deprimidos num silêncio de torpor…
Venceu o governo socialista que conseguiu amenizar as dificuldades financeiras.
Venceram os sindicatos a quem foi deixada, como feudo, a Escola Pública. Ficaram-lhes sujeitos os professores; e deles dependentes para qualquer iniciativa reivindicativa.
Venceram os «lobbys» do Ensino Particular.
Perderam os alunos que doravante ficarão submetidos às contingências das escolas que lhes tocará frequentar.
Ganharam os filhos da sorte e do poder, que disporão de escolas preparadas para eles e às que só eles terão acesso. Os seus lugares, nas elites, estarão assegurados. Aos outros perguntar-se-á quando se candidatarem a uma colocação: Qual a escola em que te formaste?...
Os professores dificilmente poderiam ficar mais fragilizados. Esbulhados dos salários que lhes davam uma certa dignidade, ficam, o que é pior, privados da sua efetividade, que dava consistência às suas vidas. Reduzidos à precariedade efectiva, a troco duma vaga promessa de atingirem o topo da carreira, após penosa jornada de quarenta anos. Ficam privados da esperança duma vida estável.
Dificilmente alguma coisa poderia prejudicar mais os professores, que este acordo sindical.
Quanto às futuras avaliações, terão a seriedade que costumavam ter estas coisas em Portugal… progredirão alguns mais habilidosos…mais aduladores e mais amigos…
Os lugares de topo serão dados, como recompensa, aos apoiantes; ou, como paga de serviços prestados, ao poder de ocasião.

Haverá lugar para o mérito? Os que ficarem para o ver responderão, quando lá chegarem.

Anselmo Vieira

2010

quarta-feira, 19 de junho de 2019

RAMIRO II, PRIMEIRO REI DE PORTUGAL


RAMIRO II, PRIMEIRO REI DE PORTUGAL

Aquele que haveria de ser rei de Leão, criou-se no norte de Portugal à guarda dos pais de Mumadona Diaz, a quem doaria Creixomil, na actual Guimarães. Por morte de seu pai Ordonho II, o seu tio Fruela, afasta os sobrinhos e tomou o reino com o título de Fruela II. À sua morte, o seu filho Afonso disputa a sucessão com os filhos de Ordonho II - Afonso, Sancho e Ramiro -, que levam a melhor com o apoio dos Senhores Portucalenses e da Galiza, dividindo o reino em 3 reinos independentes, ficando Leão para Afonso IV, Galiza para Sancho e para Ramiro Portugal, com a capital em Viseu!. Por morte de Sancho, Ramiro tomou para si o reino da Galiza. Com a morte da sua mulher, a bela Oneca, Afonso IV de Leão caiu em depressão e entregou o reino ao irmão Ramiro que voltou a unir os 3 reinos num só que governou como rei Ramiro II. Foi personagem muito popular por estas bandas até hoje, deixando lastro quer na toponímia, quer nas lendas, entre as quais a lenda de Gaia!

Agostinho Costa

quarta-feira, 15 de maio de 2019

O Mosteiro de S. João d’Arga



O Mosteiro de S. João d’Arga

O Mosteiro de S. João D’Arga, remonta ao Séc. IX e deve-se à ação do rei, Casto, Afonso II das Astúrias.
Este rei, piedoso e bem-sucedido, depois de longo reinado, alargou os seus estados até às margens do Rio Minho, conquistou e reconstruiu a cidade de Tui; e lançou os seus olhares para a outra margem do rio.
Certamente apercebeu-se da situação miserável das gentes que se acoitavam na Serra D’Arga e apiedou-se delas, ou cobiçou estes horizontes. Mas não se sentia com forças para os submeter a sua autoridade.
À espera de melhor ocasião, envia-lhes um grupo de Monges Beneditinos, para que preparem o terreno, oferecendo-lhes proteção.
Os monges tiveram artes de se tornarem guias das populações locais, de as organizarem e construíram um mosteiro em lugar recôndito da serra, de muito difícil acesso.
Quando nasce o Séc. X, o mosteiro já lá se encontrava. E os monges tinham executado, com perfeição, o seu trabalho. De tal modo que, outro Rei Afonso, agora o terceiro das Astúrias, o Grande, não teve dificuldades no envio dos seus Presores, sobre a região do Alto Minho, agregando-a nos seus estados.
O Rei contempla-a extasiado e orgulha-se do novo feudo, situado no “Velho Vale de Ovínia, por onde correm as fontes”.
O Mosteiro continuou a ser o luzeiro das gentes da região, durante toda a Idade Média, desde o Rio Ave, à via de Vigo. Teve a sua primeira crise nos tempos de D. Afonso Henriques, que tentou transferir os Monges para o novo Mosteiro em Refoios do Lima.
Invocava o Rei, que a Serra D’Arga era demasiado inóspita e já não se justificava. Os tempos eram, agora, mais seguros.
Mas os Monges opuseram-se. E por lá permaneciam, ainda, em finais do Séc. XVI.
Não podemos conceber a importância do Mosteiro daquele tempo, como os concebemos hoje em dia, numa função meramente religiosa.
O Mosteiro era principalmente um centro administrativo de um território, com todas as funções que hoje atribuímos às Câmaras Municipais, Governos Civis e Juntas de Freguesia. Eram habitados por inúmeros clérigos, dotados dos mais diversos estatutos, e que desempenhavam as funções, hoje do funcionalismo público, cada um com a sua graduação, mas todos integrados na classe clerical.
Os Reis serviam-se destes Mosteiros para governarem os seus territórios.
As guerras Liberais em Portugal, tiveram também, este efeito: Secularizar esta gente e torná-la no que são os funcionários públicos.
Também a guerra da “Maria da Fonte” a Patuleia, não foi uma mera questão de enterrar os mortos nas igrejas, ou fora delas; mas a disputa dos negócios à volta dos mortos, que antes alimentavam as Igrejas e Mosteiros, como agora os que gerem os cemitérios. 
Anselmo Vieira

03-04-2019

Devaneios dos tempos que correm



crónicas do capital financeiro - óleo s/tela de Victor da Silva Barros

Devaneios dos tempos que correm

30 de abril. Esta noite entra o mês de maio. Entra com o Dia do Trabalhador.
Mas os trabalhadores… já eram… Hoje trasvestiram-se de “colaboradores” …
Ontem odiavam os patrões. Lutavam contra eles. Era o tempo das ideologias Marxistas.
Mas hoje também já não há patrões, há empresários. Empresários que oferecem ocupação e oportunidade de colaborar a quem se sinta desocupado. Grande favor!...
Colabora numa empresa, que não é tua, e aceita a gratificação de: não te sentires inútil… é o teu salário.
No jornal do dia: Jornal de Notícias, saboreando um bom café, leio a primeira página. A letras garrafais: “Grandes empresários burlados em muitos milhões, na compra de iates de luxo.”.
Em muitos milhões!
Sorvo um golo de café e sinto-me bem-humorado. Sim senhor. Muito bem empregado…
Então andavam esses Senhores Empresários a juntar milhões, à custa do suor dos seus  colaboradores, a quem deixavam na penúria, vivendo miseravelmente, com um salário mínimo? É justo.
É justo que apareçam outros figurões da sua laia, e lhes apliquem o corretivo.
De resto, o empresário burlado, continuará a ganhar com a sua Empresa, alimentada, não pelos seus lucros, mas pelos Fundos de Investimento, anónimos e juntos, sabe-se lá por quem e como.
No pior dos casos, a Empresa pode falir. Mas o Empresário continua a ser Empresário. O dinheiro não era dele. Só perde os lucros e saboreia o seu próprio veneno.
E os colaboradores? Não são ninguém.

Anselmo Vieira

Maio - 2019

Devaneios da imprensa desportiva



Devaneios da imprensa desportiva
O Jornal, a Bola, despertou-me humor e até hilaridade.
A guerra entre os nossos clubes futebolísticos está ao rubro, neste fim de época.
E não é que os jovens sub dezanove do Porto se sagram Campeões da Europa?
O feito é razoável para as nossas aspirações.
Mas o que me deu gozo é que o Jornal Benfiquista “Bola”, lhes consagrou ou dedicou, a sua primeira página, com uma enorme fotografia de toda a rapaziada. E, para adeptos desportistas se extasiarem e apaziguarem, ilustrou a fotografia, a letras garrafais: “Os dragõezinhos dourados.”
Ora toma: ficai-vos com essa, e consolai-vos. Como quem diz, ficai-vos por aqui… e não nos aborreçais, porque o campeonato é nosso.
Matarei Dragões e Leões… E voarei nas asas da águia.”
Lá diz a Bíblia.

Anselmo Vieira

Maio de 2019