quarta-feira, 15 de maio de 2019

Devaneios dos tempos que correm



crónicas do capital financeiro - óleo s/tela de Victor da Silva Barros

Devaneios dos tempos que correm

30 de abril. Esta noite entra o mês de maio. Entra com o Dia do Trabalhador.
Mas os trabalhadores… já eram… Hoje trasvestiram-se de “colaboradores” …
Ontem odiavam os patrões. Lutavam contra eles. Era o tempo das ideologias Marxistas.
Mas hoje também já não há patrões, há empresários. Empresários que oferecem ocupação e oportunidade de colaborar a quem se sinta desocupado. Grande favor!...
Colabora numa empresa, que não é tua, e aceita a gratificação de: não te sentires inútil… é o teu salário.
No jornal do dia: Jornal de Notícias, saboreando um bom café, leio a primeira página. A letras garrafais: “Grandes empresários burlados em muitos milhões, na compra de iates de luxo.”.
Em muitos milhões!
Sorvo um golo de café e sinto-me bem-humorado. Sim senhor. Muito bem empregado…
Então andavam esses Senhores Empresários a juntar milhões, à custa do suor dos seus  colaboradores, a quem deixavam na penúria, vivendo miseravelmente, com um salário mínimo? É justo.
É justo que apareçam outros figurões da sua laia, e lhes apliquem o corretivo.
De resto, o empresário burlado, continuará a ganhar com a sua Empresa, alimentada, não pelos seus lucros, mas pelos Fundos de Investimento, anónimos e juntos, sabe-se lá por quem e como.
No pior dos casos, a Empresa pode falir. Mas o Empresário continua a ser Empresário. O dinheiro não era dele. Só perde os lucros e saboreia o seu próprio veneno.
E os colaboradores? Não são ninguém.

Anselmo Vieira

Maio - 2019

Devaneios da imprensa desportiva



Devaneios da imprensa desportiva
O Jornal, a Bola, despertou-me humor e até hilaridade.
A guerra entre os nossos clubes futebolísticos está ao rubro, neste fim de época.
E não é que os jovens sub dezanove do Porto se sagram Campeões da Europa?
O feito é razoável para as nossas aspirações.
Mas o que me deu gozo é que o Jornal Benfiquista “Bola”, lhes consagrou ou dedicou, a sua primeira página, com uma enorme fotografia de toda a rapaziada. E, para adeptos desportistas se extasiarem e apaziguarem, ilustrou a fotografia, a letras garrafais: “Os dragõezinhos dourados.”
Ora toma: ficai-vos com essa, e consolai-vos. Como quem diz, ficai-vos por aqui… e não nos aborreçais, porque o campeonato é nosso.
Matarei Dragões e Leões… E voarei nas asas da águia.”
Lá diz a Bíblia.

Anselmo Vieira

Maio de 2019

domingo, 28 de abril de 2019

S. Tiago de Fontans


S. Tiago de Fontans

É o nome mais antigo que se conhece, da freguesia de Fontão. Vem do catálogo das igrejas portuguesas do tempo do rei D. Dinis, na História da Igreja Portuguesa, da autoria de Fortunato de Almeida. Era, pois, o nome pelo qual se denominava a terra de Fontão, pelo menos desde o Séc. XIII.
Mas, pelo dito catálogo, ficamos também a saber que sendo a freguesia pequena, pagava de rendimentos ao fisco mais do que o dobro do que era cobrado a qualquer outra das freguesias da região, mesmo daquelas que eram maiores, tanto em riqueza como em extensão. Pagava mais ou menos o mesmo que as duas paróquias da então recente Vila de Viana. Enquanto as freguesias vizinhas pagavam de rendimentos, entre as cinquenta e as setenta libras, a de Fontão estava taxada em duzentas e sete libras.
Porquê tal diferença? Qual o rendimento que justificava este substancial agravamento? Mais uma vez, faltam os documentos. Estamos num ambiente rústico. Mas, temos alguns indícios. E vamos encontra-los na toponímia da terra: S. Tiago de Fontans. As Fontans, isto é, as Ribeiras.
E uma dessas Ribeiras chama-se Rego do Talho. Talvez se chamasse assim já naquele tempo. As águas do Ribeiro deviam correr com aspeto nauseabundo, como insinua o nome porque era conhecido, e que vem no mapa dos serviços cadastrais: Rio Podre. Sinal que o talho era real e se encontrava por alturas do lugar do Retiro, despejando os seus detritos na Ribeira. Esta Ribeira terminava num “Valo”, fundeadouro ou varadouro de pequenas embarcações, que pelo Rio Lima comunicavam com o mar. Nesse Valo ou fundeadouro colocaram os nossos antepassados o lendário “Tear de Ouro”. Que outro significado pode ter este tear, que não seja o de um negócio produtivo?
Mas, continuemos pesquisando a toponímia.
Para montante do Talho e Rio Podre, e seguindo o Rio Velho, encontramos o lugar do Toural e, mais para cima, as pastagens do Ameal e os campos planos das Neves, regadas pelas águas frescas que descem da Silvareira, indiciando também que gados e pastagens são vigiados desde as elevações do lugar das Torres.
Todos estes topónimos, enquadrados num conjunto ordenado e harmónico, nos sugerem uma
intensa criação de gado; e uma florescente industrialização e futuros negócios de carnes e curtumes.
As peregrinações, o turismo desse tempo a Santiago de Compostela e à Terra Santa ou a Roma; e, mais tarde os Cruzados, que nas terras da Galiza e Norte de Portugal, marcavam o seu ponto de encontro, dinamizaram estes criadores e exploradores de gado. Deste modo, o rendimento do negócio aumentou o volume dos encargos.
D. Afonso Henriques aliou-se a estas gentes e deles beneficiou para o seu projecto. Protegeu-os com os seus “Serenos”, guardas da noite, e talvez funcionários do seu fisco, ao mesmo tempo que lhes garantia segurança nos caminhos e vela nas suas noites.
Assim continuava a ser, nos tempos dos seus filhos e seus netos.
Quando terminou esta prosperidade em Fontão?
Tenho para mim, que no momento em que o Matadouro do Toural se mudou para Viana, o Talho passou a ser uma memória fossilizada e, o Rego do Talho deixou de ser o Rio Podre.
Os Fontanenses de hoje, perderam a memória, mas transportam ainda, no fundo do subconsciente, a nostalgia desses tempos ancestrais em que viveram prósperos e foram auto-afirmativos, rejeitando agora as novas realidades, que não aceitam. E é isto que constitui a sua actual singularidade.

Anselmo Vieira

Arqueólogo

O mais antigo Fontanense


O mais antigo Fontanense

Chamava-se Ansedes ou Ancedes, o habitante mais antigo de Fontão, de quem se conserva memória. Vivia no lugar do Souto. Numa quintinha que, embora retalhada pela estrada nacional do Séc. XIX, ainda se conserva, fraccionada em dois pedaços. Num deles conserva-se uma casa bastante antiga, sem dúvida habitação do Senhor, mas que serviu nos meus tempos de criança como Posto de Ensino da Escola Primária.
Ansedes, possivelmente nobre e guerreiro, movia-se entre as terras de Ponte de Lima e as de Vila do Conde, era contemporâneo de D. Afonso Henriques, e vivia ao seu serviço.
Em que serviria Ansedes o seu Rei?
D. Afonso Henriques, ainda Conde, comprometera-se com as gentes de Ponte de Lima, em troca da fidelidade dos Limianos, na segurança dos Caminhos, ao tempo infestados de bandoleiros, piratas e toda a espécie de ladrões e salteadores.
Ansedes encarregar-se-ia, muito provavelmente, de dar cumprimento a esse compromisso, por encargo do Príncipe.
Mas os documentos apresentam-no, também, como fundador do Mosteiro de Refojos do Lima.
Seria, então, Ansedes, além de guerreiro, também monge? Ou simples Clérigo? Que os havia ao tempo, até sem “Ordens Menores”, e que se dedicavam a serviços hoje desempenhados por funcionários públicos.
Se era monge, pertencia ao Mosteiro de S. João de Arga. E dele se serviu D. Afonso para transferir o dito Mosteiro para lugar mais condizente com os tempos…
Dessa missão, se encarregou também o nosso Ansedes. E deve tê-lo conseguido, a contento de seu amo, embora nem todos os monges concordassem com a dita transferência. Alguns ficaram, pois, dois séculos passados, ainda os Monges de Refojos pagavam “Foros” à casa mãe de S. João D’Arga.
É assim como Ansedes surge como fundador do Mosteiro de Refojos do Lima. Certamente como intermediário do Rei e na sua qualidade de Monge, Clérigo ou alto funcionário.

09/01/2007
Anselmo Vieira

Arqueólogo

Brutónia


Brutónia

Brutónia ou Bretónia. Cidade que existiu no Minho. Marca o início e o fim da romanização do povo galego. Mas terá existido mesmo?
Os historiadores Romanos, que narram os fatos, atribuem-na a Décimo Júnio Bruto, que a terá
fundado, na margem direita do Rio Lima, no local onde realizou a célebre travessia. Mas da cidade chegou a perder-se a memória, até do sítio onde foi edificada. No entanto, parece ter gozado duma certa notoriedade até ao fim do império romano. Parece que chegou a ser cátedra dum Bispo ou Abade que nela se refugiou no início da Idade Média, perseguido pelos Normandos, que o atacaram no seu Mosteiro ou Diocese, por terras de Escócia.
Mas, a cidade tinha de tal modo caído no esquecimento, que nem o sítio do seu assento era lembrado. E a sua memória ficou tão apagada, que só através da memória do tal Bispo ou Abade voltou a ser lembrada.
Quem terá sido o responsável de tal apagão?
No meu entender, o mesmo deu-se por alturas do início da Idade Média, coincidindo com a Idade das Trevas, ou medieval. Mais ou menos, nos tempos das primeiras invasões Viquingues nesta região. E terá sido vítima esta cidade, da fúria selvagem destes piratas que puseram toda a região da Galiza a ferro e fogo. De tal modo atacaram e arrasaram a cidade, que não ficou viva alma e até o seu acento ficou irreconhecível. E hoje os historiadores, não se põem de acordo quanto ao mesmo. Mas ela terá existido durante todo o tempo do Império Romano e terá acompanhado toda a romanização do povo Galego.
Pesquisei todos os nomes das terras da margem direita do Rio Lima e constatei que só Bertiandos tem alguma sonoridade de Brotónia ou Britónia. E concluo que a antiga Britónia incluiria as atuais freguesias de Bertiandos, Sá, Sta. Comba e até Moreira e Estorãos. Se é que não seria o nome primitivo da localidade de Ponte de Lima, sobretudo o lugar de Além da Ponte.
Dizem os filólogos e outros sábios da Linguística que o termo Brutónia, nunca poderia derivar para Bertiandos. Mas é o mais parecido.
Os culpados não deixaram ninguém para testemunhar. Não houve continuidade da memória por falta de continuidade da povoação. Resta um vislumbre, uma vaga reminiscência, uma deturpação. O mais aproximado que se conseguiu de alguém com uma vaga ideia…

Anselmo Vieira

(Arqueólogo)

A minha vida é um Rio


A minha vida é um Rio

Um dia soltei amarras,
Que me prendiam à margem.
E abandonei meus cuidados.
Deixei-me levar na corrente,
E a vogar meu barquinho,
Ultrapassei o Bugio.
E sempre, sempre a sonhar,
Encontrei-me baloiçando,
Nas ondas do Alto Mar.
Enfunei velas ao vento,
Dirigi a proa ao Sul,
Caminho de Gil Eanes…

Perdido no imenso mar
Via baleias respirar…
E os irrequietos Golfinhos,
À minha volta a brincar.
E quais gafanhotos marinhos
Peixes voadores, festivos, pareciam
Minha aventura festejar.
Enquanto o sol tropical
Em suor me fazia arfar…
Vi o perfil das Canárias,
Sonhei, sonho de Afonso IV…
E continuei a rumar.
Caminho do Equador
Caminhos de Diogo Cão,

Que ao Congo me iriam levar,
E do Congo, ver a luta,
Investindo contra o mar,
Até bem dentro do mar!

Cansado já do caminho,
Desejando descansar,
Virei a proa a Nascente.
Fui descansar a Luanda.
Salvador Correia de Sá,
Eu estive na tua Baía…
Bela cidade de Luanda,
Onde estiveste um dia.

E, em Luanda, cheirei África…
O seu cheiro a colmo podre…
Em tempestade de verão.

Abril – 2019

Anselmo Vieira

D. Afonso Henriques e S. Bernardo de Claraval

Afonso Henriques - Soares dos Reis

D. Afonso Henriques e S. Bernardo de Claraval

Discutem, hoje, muitos historiadores, e outros curiosos da história portuguesa, se D. Afonso Henriques era o verdadeiro descendente, filho do Conde D. Henrique e de Dona Teresa, ou um outro qualquer, que se apresentou como tal.
Trata-se de uma questão de legitimidade. E tal questão, não me interessa. Só quero saber, do verdadeiro Afonso Henriques da História, aquele que se apresentou como tal, o “Ducis Portucalensis”, na conferência da Zamora, no ano de mil cento e quarenta e três. Conferência que foi presidida por S. Bernardo de Claraval, representando o Papa de Roma; e por Afonso VII, rei de Leão e Castela, representando os Reinos Cristãos das Espanhas.
Ali, em Zamora, tratou-se de vincular os Reinos Cristãos das Espanhas, aos poderes de Roma, não como a capital do antigo império, mas à autoridade da nova Europa, que emergia, e da qual S. Bento é considerado o fundador, e S. Bernardo quer impulsionar.
S. Bernardo deve ter simpatizado com o “Ducis Portucalensis”, e escolheu-o como um dos esteios e executores das suas ideias, para a cristandade europeia.
De fato, aquele “Ducis”, dominava um território estratégico, ao longo da costa atlântica, que devia ser apoiado, libertado e defendido para assegurar os movimentos das forças cristãs em direcção à Terra Santa.
E resolve transformá-lo em rei.
Para tal, convence aquele homem, na casa dos cinquenta anos, a prescindir da família, mulher e filhos. E nobilita-o, casando-o com Dona Mafalda de Saboia, o que fará dele um “Rei”, aparentando-o com a melhor nobreza europeia.
Afonso VII resmungou. Mas S. Bernardo, expedito, dá-lhe o nome de Imperador de todas as Espanhas. E convence-o de que um imperador, só o será plenamente, se for suserano de reis.
De seguida, dá ao novo “soberano”, um séquito de Conselheiros: Sete Monges Templários e um grupo numeroso de Monges Beneditinos, com os quais fundará o Mosteiro de Alcobaça.
E foi assim, que o Príncipe Português, levado pelas mãos de S. Bernardo, esteve na formação da Europa, que se criava sob a autoridade do Príncipe da Cristandade, O Papa de Roma.
Os Galegos do Norte não aderiram. Depois de muitos titubeios, deixaram-se enredar pela ideia de uma Espanha unida. Não se deram conta que tal ideia, nem espanhola é. Foi imposta aos Espanhóis pela Roma imperial e, depois, pelos Visigodos.
Mas numa, se impôs verdadeiramente. E hoje é, apenas, italiana. O fato é que os mesmos Galegos sofrem “rejeição”, dentro da pátria espanhola; sobretudo em Castela.
Que o diga Rosalia de Castro. Basta ler os seus queixumes. Eu mesmo senti esta rejeição, no meu convívio, por terras de Espanha.
A esta sensação de não pertença, que alguns chamam de independentismo, está sempre à flor da pele, e pronta a dilacerar a pretensa unidade peninsular. Veja-se o país Basco. Veja-se a Catalunha.

14-04-2019
Anselmo Vieira